Sob a gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos), o estado de São Paulo enfrenta o que especialistas e parlamentares classificam como um projeto “surreal” e um ataque frontal à saúde pública: a demolição física do Instituto Adolfo Lutz (IAL). O objetivo é abrir espaço para o “Hospital Inteligente”, um projeto de R$ 1,9 bilhão que, ironicamente, conta com massivo financiamento federal e do BRICS, mas que servirá de palco para a entrega do patrimônio público a Organizações Sociais (OSS).
O novo empreendimento, oficialmente chamado de Instituto Tecnológico de Emergência (ITE), é fruto de uma parceria entre o governo federal e a China. O financiamento é quase integralmente externo ao estado: R$ 1,76 bilhão (91,4%) provêm de um empréstimo do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB/BRICS), presidido por Dilma Rousseff; R$ 110 milhões vêm da União e apenas R$ 55 milhões são contrapartida do Estado de São Paulo.
Apesar do aporte bilionário de entes públicos, o modelo de gestão previsto é a “publicização”, ou seja, a entrega da administração a uma organização social de direito privado, segundo crítica da Adusp (Associação dos Docentes da USP).
A entidade afirma que a proposta do governo Tarcísio é “surreal” e define a situação como um “risco iminente de despejo” de uma instituição científica com 134 anos de serviços prestados. A associação denuncia que o governo pretende demolir prédios que passaram recentemente por um extenso programa de reformas e modernização, custando mais de R$ 100 milhões aos cofres públicos. A Adusp ressalta que o edifício central é tombado pelo Condephaat e foi projetado pelo prestigiado escritório Ramos de Azevedo, o mesmo que projetou a Faculdade de Medicina..
A incapacidade de Tarcísio em encontrar terreno
A maior crítica política recai sobre a falta de planejamento e a “anticiência” da atual gestão estadual. Enquanto coube à União e aos BRICS o financiamento, Tarcísio de Freitas ficou responsável por fornecer o terreno. No entanto, segundo o deputado estadual Carlos Giannazi (PSOL), o governador não foi capaz de apresentar uma solução sem ameaçar outro serviço público fundamental, optando por demolir laboratórios estratégicos em vez de buscar áreas alternativas no Complexo das Clínicas.
A deputada federal Luciene Cavalcante (PSOL-SP) questiona a lógica territorial do projeto: “Não existe nenhum hospital estadual fora do centro de São Paulo que realize cirurgia cardíaca. Por que esse novo hospital tem de ser construído também na região central?”. Para a parlamentar, o morador das periferias, como Campo Limpo ou Grajaú, continuará sem tempo de chegar com vida ao atendimento especializado.
“A destruição do Instituto Adolfo Lutz”
O corpo técnico do IAL, que descobriu o plano pelas redes sociais, está em choque. A assistente técnica de pesquisa Giselle Ibette Silva López Lopes denunciou na Assembleia Legislativa (Alesp) que a demolição jogará no lixo mais de R$ 100 milhões em reformas recentes. “A demolição desses prédios será a destruição do instituto. O que seria um prejuízo enorme para a população do Estado de São Paulo e para a saúde do nosso povo”, afirmou Giselle.
Ela reforça a importância histórica e técnica do local: “É reconhecido internacionalmente por sua competência para responder às demandas em sua área de atuação. São quase 600 exames diferentes que realizamos”.
Operação de guerra e desmonte humano
A APqC (Associação dos Pesquisadores Científicos) alerta que a transferência do IAL exigiria uma “operação de guerra” com escolta do Exército e da Secretaria de Segurança Pública para movimentar microrganismos de risco biológico dual, como os agentes do antraz, botulismo e peste. A mudança custaria R$ 446,25 milhões e levaria 36 meses, paralisando diagnósticos vitais.
O desmonte físico é acompanhado pelo sufocamento administrativo: o Decreto nº 70.410/2026 de Tarcísio extinguiu 79% dos cargos do Adolfo Lutz (1.851 cargos). Para o deputado Carlos Giannazi (PSOL), a estratégia segue a “privataria”: precariza-se o serviço e esvazia-se os quadros para, em seguida, alegar obsolescência e entregar o patrimônio ao controle privado.
A resistência agora se organiza em frentes jurídicas e políticas, com pedidos de transparência ao Ministério Público e ao Tribunal de Contas, na tentativa de impedir que o legado de 134 anos da ciência paulista seja demolido em nome de um hospital de vitrine gerido por OSS.



