O Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) celebrou seus 70 anos destacando a presença e as contribuições das mulheres na ciência brasileira. A ocasião, intitulada “Mulheres na Ciência: compartilhando trajetórias, experiências e contribuições no campo científico”, reuniu pesquisadoras de diversas áreas para uma reflexão profunda sobre os obstáculos, as vitórias e o impacto da atuação feminina na produção de conhecimento científico e tecnológico no país.
No encontro, realizado em 29 de maio, Raquel Guimarães Domingos da Silva, originária da comunidade da Mangueira, no Rio de Janeiro, compartilhou sua jornada inspiradora, traçando um caminho diferente do que poderia ser imposto pelas desigualdades sociais de seu território. Formada em Medicina e atualmente chefe da Divisão de Diagnóstico do Instituto Nacional de Câncer (Inca), Raquel relatou as dificuldades enfrentadas como mulher negra e neta de empregada doméstica. “Eu era a única negra da turma e isso me provocava uma espécie de síndrome da impostora”, declarou, evidenciando os desafios psicológicos e sociais inerentes à sua trajetória. Sua vasta experiência em gestão de saúde, pesquisa clínica e ensino médico ressalta sua notável contribuição.
A professora titular da Universidade de São Paulo (USP) e chefe do Laboratório Nacional de Células-Tronco Embrionárias (Lance), Lygia da Veiga Pereira, também expôs a necessidade de grande força e resiliência para ser mulher no ambiente acadêmico. Natural do Rio de Janeiro, ela encontrou em São Paulo o cenário propício para suas pesquisas pioneiras em células-tronco pluripotentes, síndrome de Marfan e inativação do cromossomo X. Lygia lidera o Projeto DNA do Brasil e é fundadora da startup Gen-t, focada em estudos sobre a diversidade genética populacional brasileira e suas aplicações na medicina de precisão. Sua atuação científica sublinha a importância de compreender a diversidade brasileira e a luta das mulheres por espaço.
Quebrando paradigmas familiares na Ciência
Elisabete Inácio Santiago, pesquisadora do Ipen, narrou como rompeu com as expectativas familiares. Ouvindo de sua mãe que o papel da mulher era casar e cuidar dos filhos, Elisabete buscou o estudo da química, tornando-se uma referência em eletroquímica e desenvolvimento de células a combustível. Essa área é estratégica para a transição energética e para a busca de soluções sustentáveis. Sua reconhecida atuação científica ressalta a relevância da pesquisa nacional em energias limpas e o papel crucial das mulheres na construção de um futuro mais sustentável e inovador.
Um ponto de convergência entre as três cientistas foi o desafio da maternidade em meio a carreiras exigentes. Questões como “Chegou a hora, não chegou a hora, como vou seguir a carreira, terei apoio ou não terei…” foram cruciais em momentos de suas trajetórias. Raquel, Lygia e Elisabete souberam conciliar a maternidade com suas carreiras, tornando-se também mães inspiradoras para seus filhos e para a sociedade brasileira.
O evento, parte das comemorações dos 70 anos do Ipen, contou ainda com a participação da socióloga Marcia Barral, representante do Ministério das Mulheres do governo federal. Com o encontro, o Ipen buscou dar força à promoção de igualdade de oportunidades e incentivar a participação feminina nas áreas de ciência, tecnologia e inovação.



