No primeiro debate de 2026 entre os candidatos ao governo de São Paulo, promovido pela Band, a nacionalização da disputa deu o tom do confronto. Enquanto Fernando Haddad (PT) apostou numa integração quase total com a figura do presidente Lula para projetar estabilidade, Tarcísio de Freitas (Republicanos) fez um equilibrismo entre a lealdade pessoal a Jair Bolsonaro e o distanciamento administrativo do bolsonarismo. Em outras palavras, Tarcísio falou de Bolsonaro para gerar o corte para a rede social, mas só. No restante do debate, o nome do ex-presidente sumiu de sua boca.
Fernando Haddad não poupou esforços para vincular o desenvolvimento de São Paulo à gestão petista em Brasília. Para o candidato, os avanços do estado são indissociáveis da “visão republicana” da União — e ele foi direto ao comparar os dois governos: se a União parasse de liberar recursos para São Paulo a partir de hoje, o total já enviado ainda seria quatro vezes maior do que tudo o que a gestão Bolsonaro destinou ao estado.
Haddad também tentou expor o que chamou de contradição de Tarcísio, sugerindo que o governador se beneficia de parcerias com o governo federal enquanto evita reconhecer publicamente essa proximidade. Sobre a economia nacional, defendeu os indicadores como aposta de futuro: segundo ele, o governo Lula deve entregar a menor inflação acumulada em quatro anos, a menor taxa de desemprego da história do país e um crescimento superior ao registrado nos governos Temer e Bolsonaro.
Tarcísio abraça Bolsonaro no discurso, mas mantém distância na gestão
Pressionado por sua origem política, Tarcísio de Freitas tentou separar o “caráter pessoal” da “gestão estadual”. Questionado sobre sua ligação com o ex-presidente, reagiu com a frase que marcou a noite:
“Esquece Bolsonaro, Haddad, você não está concorrendo contra ele mais, isso foi em 2018, já passou, vamos focar aqui em São Paulo.”
Mas o “esquecimento” estratégico não foi longe. Diante da provocação de Haddad — que perguntou se ele tinha vergonha do ex-presidente —, Tarcísio selou o compromisso:
“Não tenho vergonha, tenho gratidão. Foi a pessoa que me abriu as portas, e gratidão não se prescreve. Então um abraço, Bolsonaro.”
O governador defendeu ainda que sua autonomia é técnica: ao invés de “fatiar” a Esplanada entre partidos, disse, Bolsonaro “resolveu colocar pessoas da área” — e é isso, segundo ele, que replica em São Paulo com um secretariado técnico.
O contra-ataque: Brasília como “obstáculo”
Para fugir das críticas ao próprio passado, Tarcísio inverteu o alvo e mirou o governo federal atual, tratando-o como entrave burocrático e fiscal. “Lá [em Brasília] a gente tem um governo que é mais rejeitado do que aprovado. Será que não tá na hora da gente dar uma guinada?”, questionou.
O governador também criticou a condução econômica de Lula — o que chamou de afrouxamento fiscal — e cobrou a liberação de créditos represados: segundo ele, seria importante liberar as operações de financiamento hoje travadas com o Banco Europeu de Investimento, o Banco Mundial, o Banco do Brasil e a Prefeitura de São Paulo.
