Início Manchete Enquanto periferia esperava Wi-Fi, bolsonaristas gastavam milhões em hotel e alimentação

Enquanto periferia esperava Wi-Fi, bolsonaristas gastavam milhões em hotel e alimentação

Hotel de luxo Unique em São Paulo. Foto: Mavinho Acoroni / Wikimedia

Enquanto moradores das periferias paulistanas seguiam esperando pelos pontos de internet gratuita prometidos pelo programa municipal “Wi-Fi Livre SP” — do qual apenas 3.200 dos 5.000 pontos previstos foram de fato instalados —, milhões de reais sob suspeita de desvio bancavam uma rotina bem diferente: hospedagens de luxo, refeições corporativas fartas e a compra de um SUV híbrido pago em com dinheiro vivo.

Relatórios de Inteligência Financeira (RIF) do COAF e levantamentos da Polícia Federal, anexados aos autos da Operação Make Up — sob relatoria do ministro Flávio Dino no Supremo Tribunal Federal (STF) — expõem o contraste: o mesmo dinheiro repassado a organizações sociais para serviços essenciais e projetos comunitários alimentava, em paralelo, os bastidores da cinebiografia bolsonarista “Dark Horse”.

R$ 19 milhões e as datas das filmagens

Entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025, as contas da produtora Go Up Entertainment Ltda. — responsável pelo filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro, que tem o deputado federal Mário Frias (PL-SP) como roteirista e produtor-executivo — registraram movimentações atípicas de R$ 19.033.071,00 (R$ 8,95 milhões a crédito e R$ 10,07 milhões a débito).

Para a Polícia Federal e a CGU, o dado mais revelador não é só o valor, mas a coincidência temporal: o pico dessas movimentações coincide exatamente com o período de gravação do longa em São Paulo, entre 20 de outubro e 7 de dezembro de 2025.

O detalhamento das despesas na capital paulista mostra um padrão de gastos suntuosos:

– R$ 906.768,44 em nove transações para a Unique Serviços de Hotelaria e Alimentação, ligada ao luxuoso Hotel Unique, nos Jardins.
– R$ 653.155,00 para a Foodflix Alimentação Ltda., especializada em alimentação corporativa.
– R$ 896.690,40 repassados à BAW Facilitadora de Pagamentos Ltda.
– R$ 264.700,00 para a J D da Silva Produções e R$ 227.561,00 para a Mazal Produções.

Segundo os investigadores, tanto a natureza quanto o momento dessas despesas são compatíveis com os custos de uma produção cinematográfica de grande porte — bancada, segundo a apuração, por recursos de origem suspeita.

SUV pago em dinheiro vivo e sede fantasma nos Jardins

A ostentação não ficou só nas diárias de hotel. Em 13 de janeiro de 2025, Karina Ferreira da Gama — presidente do Instituto Conhecer Brasil (ICB) e sócia da Go Up — comprou um SUV híbrido BYD Song Plus na concessionária BYD Dahruj (CMD BD Comércio de Automóveis Elétricos Ltda.), em São Paulo, por R$ 102.190,00.

O que chamou atenção dos órgãos de controle foi a forma de pagamento: o carro foi quitado integralmente em cédulas.

Levantamentos da Polícia Civil de São Paulo (na Operação Wi-Fi) e da Polícia Federal apontam ainda uma simulação de endereço:

– No papel, tanto o ICB (beneficiário de contratos e emendas) quanto a Go Up declaravam sede em um espaço de coworking na Avenida Paulista, 807.
– Na prática, a operação e a estrutura administrativa de ambas funcionavam sem registro formal em andares de um prédio na Rua Haddock Lobo, 746, nos Jardins — bairro nobre da capital.

Quem abasteceu o caixa da produtora

Ao rastrear a origem dos R$ 19 milhões movimentados pela Go Up durante as filmagens, o COAF identificou um cruzamento entre doações privadas, empresas de fachada e repasses diretos do próprio Mário Frias:

– Mário Frias transferiu R$ 645.400,00 de sua conta pessoal para a Go Up em menos de 60 dias — valor que a PF classifica como incompatível com seu salário bruto de deputado (R$ 44.008,52), o que o coloca como “agente central” das movimentações.
– NTT Brasil Ltda., de Heric Fabiano Dias, repassou R$ 750.000,00. A empresa integra o mesmo grupo (que inclui a Dinâmica Editora e a Super Leitores) que recebeu cerca de R$ 700 mil do ICB para kits pedagógicos e plataformas digitais já sob suspeita de fraude — o que sugere, para a PF, um retorno indireto de verba pública à produtora.
– Marcello de Oliveira Lopes, ex-marqueteiro do senador Flávio Bolsonaro, injetou R$ 1.000.000,00.
– GO7 Assessoria, empresa de Karina Gama, repassou R$ 2.614.000,00.
– Moneycorp Banco de Câmbio S.A. registrou transferências de R$ 3.920.976,40.

Do Wi-Fi às emendas: um único circuito no STF

Para a Polícia Civil e a Polícia Federal, o contrato de R$ 108 milhões entre a Prefeitura de São Paulo e o ICB e os termos de fomento custeados por emendas federais não são episódios isolados — são partes da mesma estrutura de captação, lavagem e ocultação de recursos públicos.

Diante dos indícios de fragmentação de valores em “circuito fechado”, o ministro Flávio Dino determinou a avocação dos inquéritos estaduais paulistas para o STF, autorizou buscas e apreensões, proibiu Mário Frias e Karina Gama de deixarem o país, determinou a retenção de seus passaportes e suspendeu o direito das empresas envolvidas de contratar com o poder público.

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