Início Manchete Por que tanta chuva? Especialista alerta sobre El Niño e racismo ambiental

Por que tanta chuva? Especialista alerta sobre El Niño e racismo ambiental

Igor Serra. Foto: acervo pessoal

As chuvas intensas e atípicas que têm atingido o estado de São Paulo são um sintoma alarmante de uma crise climática global que se aprofunda e cujas consequências mais severas ainda estão por vir. Igor Serra, coordenador ambiental do grupo Dedini e especialista com mais de 25 anos de atuação em gerenciamento de recursos hídricos, alertou em entrevista ao Radar Democrático que a imprevisibilidade do clima é a nova normalidade, um cenário potencializado pelo El Niño e que expõe vulnerabilidades crônicas na gestão hídrica, na infraestrutura e na equidade social do país.

El Niño e as chuvas fora da curva

A recente onda de chuvas no estado de São Paulo é classificada por Serra como “anormal” para a época do ano. Ele explica que o fenômeno El Niño, embora não seja novo, tem sido intensificado pelo aquecimento global, transformando as previsões meteorológicas em um desafio constante.

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“A gente está numa época que o normal é ter previsão de não ter previsão, né? Porque as coisas ficam um pouco doidas, um pouco malucas, porque as mudanças climáticas, mais o advento de El Ninho, potencializa essas mudanças que a gente não está acostumado.”

Serra detalha que o El Niño, caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas do Pacífico Equatorial, interfere na pressão atmosférica global. As consequências são drásticas: seca na Amazônia, chuvas torrenciais no Sul do Brasil e um cenário incerto para o Sudeste, onde pode chover muito ou nada, ou ainda de forma altamente concentrada, como tem sido observado. Essa concentração de umidade, explicada como um “corredor de umidade vindo da Amazônia bem em cima da nossa região hoje”, é a causa das chuvas localizadas.

Veja a entrevista de Igor Serra na íntegra

Crise hídrica crônica e o “sequestro” de água do Rio Piracicaba

Apesar do aumento dos níveis do Sistema Cantareira, que abastece a região da Grande São Paulo, o especialista sublinha que a bacia PCJ (Piracicaba, Capivari e Jundiaí) e o Alto Tietê enfrentam uma crise hídrica crônica. Mesmo com a disponibilidade de recursos para obras de transposição e barragens, o volume de água por habitante é “extremamente baixo, muito parecido com os volumes do Nordeste”.

Um dos pontos mais críticos levantados por Igor Serra é o que ele chama de “sequestro de água enorme, um absurdo” do Rio Piracicaba pelo Sistema Cantareira para abastecer a Região Metropolitana de São Paulo. Ele aponta a disparidade:

“O sistema Cantareira tira até 33 mil litros d’água por segundo da bacia do rio Piracicaba. E deixa em média, o que desce em média para a bacia do rio Piracicaba, cerca de 5 mil litros d’água por segundo… está tirando dois rios do rio Piracicaba em troca de um rio que desce para cá, em volumes de água.”

Essa prática não só afeta a quantidade, mas também a qualidade da água disponível para as cidades da bacia PCJ, tornando o tratamento mais caro e complexo, com o surgimento de subprodutos como o ácido haloacético, que indicam a péssima condição da água bruta.

Privatização da água: retrocesso inaceitável

Uma das maiores preocupações de Igor Serra é a iminente privatização do Sistema Adutor Regional (SAR), que inclui barragens nos rios Jaguari e Tamanducaia. O especialista se declara “extremamente contra” essa proposta do governo do Estado.

“A população deveria ser extremamente contra porque a água é um recurso, é um bem da humanidade que tem que ser distribuída no quanto mais barato possível e quando você é privativo, você tem a questão dos lucros das empresas que vão estar fazendo a gestão desse sistema.”

Ele alerta para o risco de conflitos de interesse caso a gestão do SAR não seja da Sabesp privatizada, e defende que o controle da água deve estar “na mão do povo”, por meio de câmaras técnicas, evitando que uma empresa privada determine os fluxos de um recurso essencial.

Para Serra, a solução para a crise hídrica não passa pela construção de barragens, que causam “impacto ambiental negativo enorme”, mas pela proteção dos mananciais, reflorestamento de nascentes e matas ciliares, e, crucialmente, pela contenção de perdas na rede. Em Piracicaba, por exemplo, 55% da água tratada é perdida por vazamentos. Medidas como essas deveriam ser prioritárias antes de obras caras e impactantes.

Justiça climática e racismo ambiental

A conversa se aprofunda na dimensão social da crise climática. As mudanças no clima impactam diretamente a economia e a produção de alimentos, tornando a agricultura imprevisível e podendo gerar um “encarecimento do valor dos alimentos” e inflação. No entanto, Igor Serra ressalta que a falta de alimentos já é uma realidade para milhões de brasileiros, e que a crise climática agravará a situação para a população mais pobre, que vive em áreas de maior risco a deslizamentos e alagamentos.

Essa realidade leva à discussão sobre justiça climática e racismo ambiental. Serra pontua que “quem mais emite [gases do efeito estufa], quem mais causa impactos negativos no meio ambiente, normalmente é a população de alta renda, são as pessoas mais ricas”. Por outro lado,

“quem sofre mais com os problemas ambientais é exatamente as pessoas mais pobres. Quando a gente fala em racismo ambiental, e quem sofre mais normalmente é o povo mais preto, que é o povo que é mais pobre e que é o povo que está nas periferias.”

O especialista defende que quem causa o impacto ambiental deve financiar a solução para os problemas que os mais pobres sentem.

O Brasil, quinto maior emissor de gases de efeito estufa, tem seu principal problema na “mudança de uso do solo, que é quando a gente pega o solo e inverte o uso dele”, com destaque para desmatamento e queimadas na Amazônia e no Cerrado, e a influência do agronegócio. Serra afirma que “se o Brasil tivesse políticas realmente voltadas para conter o desmatamento da Amazônia, cerrado, e a gente conseguisse frear o desmatamento causado pelo agronegócio, a gente estaria aí muito mais, emitiria muito, muito menos gás de efeito estufa”.

Urgência da educação ambiental crítica

No cenário político, Igor Serra vê esperança no “campo progressista” para combater as mudanças climáticas, mas também aponta contradições, como a busca por petróleo na bacia do Amazonas por governos que também atuam para reduzir o desmatamento. Para ele, é essencial uma transição energética. A falta de preparo para eventos extremos é visível: chuvas de 60 milímetros em uma hora já causam grandes estragos. Em Piracicaba, a Defesa Civil é deficitária e a política de mudanças climáticas está “engavetada”.

O especialista reforça que os efeitos do aquecimento global são cumulativos e duradouros: mesmo que as emissões de gases de efeito estufa fossem zeradas hoje, o planeta continuaria a aquecer por mais 50 a 60 anos. A curva de aquecimento, inclusive, está aumentando. Diante desse quadro, Serra conclui a entrevista reforçando a necessidade de uma educação ambiental crítica:

“A gente tem que pensar em rever todas as nossas atitudes pra gente conseguir ter um futuro melhor, um futuro mais, num planeta, vamos dizer assim, mais habitável, mais perto do habitável possível. […] A gente tem que pensar em educar melhor, em ter uma educação ambiental crítica, que a gente coloque as pessoas no centro dos problemas ambientais, para que as pessoas consigam enxergar que elas fazem parte da solução desses problemas.”

 

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