Análise das metas de Tarcísio no SP1 revela descompasso em áreas estratégicas
A sabatina do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, no jornal SP1, expôs um padrão claro na condução de políticas públicas do estado: o distanciamento entre as promessas de gestão e a realidade revelada pelos indicadores oficiais. Ao focar no balanço do governo em Educação e Saúde, observa-se um cenário em que metas não atingidas geram recuos estratégicos, enquanto as entregas efetivas não se traduzem no alívio esperado da demanda da população.
O governador participou da sabatina na última terça, dia 15, com o jornalista da Globo Alan Severiano. Diversos temas foram perguntados pelo apresentador do SP1, e o Radar Democrático, filtrou aqui o que foi dito – e não dito – sobre educação, saúde e habitação.
Educação: recuo em políticas centrais
Na educação, a sabatina evidenciou frustrações tanto no formato de ensino quanto no desempenho acadêmico e no uso da tecnologia em sala de aula.
Ensino Integral: Tarcísio havia prometido atingir 60% dos estudantes da rede estadual na modalidade integral até o fim do mandato. Na entrevista, admitiu que a meta não será alcançada — atualmente, o índice está em pouco mais de 30%. O governador recalibrou a promessa para 40% em um eventual segundo mandato, alegando a necessidade de priorizar a estruturação das escolas.
Indicadores do Ideb: No Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, os dados oficiais mostram estabilidade com leve avanço (anos finais do ensino fundamental subiram de 5,1 em 2023 para 5,2 em 2025; o ensino médio foi de 4,2 para 4,3). Apesar de não haver queda, os índices ficaram abaixo das metas estipuladas, que eram de 5,8 e 5,1, respectivamente.
Uso do Pisa: Para contrabalançar os dados do Ideb, o governador recorreu ao Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). O uso do indicador, contudo, é limitado para avaliar a atual gestão: a edição de 2022 refletia dados anteriores ao seu mandato, enquanto o ciclo de 2025 teve seus dados divulgados apenas em setembro de 2026, com o Inep recomendando cautela no isolamento desses resultados para governos locais.
Plataformização do Ensino: Outro ponto de inflexão foi a revisão da obrigatoriedade das plataformas digitais. Tarcísio admitiu que a cobrança excessiva de exercícios digitais engessou a atuação dos professores e gerou resistência, sinalizando um recuo em uma política até então defendida como símbolo de modernização.
Saúde: aumento de cirurgias sem impacto nas filas
No campo da saúde, o contraste ocorreu entre o volume bruto de atendimentos e a persistência dos gargalos no atendimento à população.
Volume Operacional vs. Demanda: O governo destacou que o número de cirurgias saltou de cerca de 750 mil para 1,5 milhão, registrando volume recorde de procedimentos eletivos em 2025. Contudo, o aumento da capacidade de atendimento não significou uma redução proporcional nas filas de espera, que continuam pressionadas.
Auditoria e Transparência: Dados de auditorias do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre programas de especialidades entre 2023 e 2025 apontaram falhas de monitoramento. O tribunal identificou que apenas uma pequena parcela das cirurgias realizadas foi devidamente integrada à Rede Nacional de Dados em Saúde, o que dificulta o mapeamento preciso e a transparência do real tamanho da fila no estado.
Habitação: mudança de perfil das entregas e distância da meta
Na política habitacional, a análise dos dados revela uma divergência estrutural entre a promessa de construção de moradias e o modelo de atendimento efetivamente adotado.
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Metas de campanha vs. atendimentos: Tarcísio apresentou o programa Casa Paulista como a maior iniciativa habitacional da história do Estado, registrando mais de 80 mil famílias atendidas. No entanto, o número está distante da promessa de campanha de 2022, que previa a entrega de 200 mil moradias até o fim de 2026.
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Construção Direta vs. Subsídios: A parcela expressiva dos resultados contabilizados pelo governo não corresponde à construção e entrega direta de unidades habitacionais pelo poder público, mas sim à concessão de subsídios e cartas de crédito para financiamento. Embora ambas as modalidades facilitem o acesso à moradia, elas possuem impactos e dinâmicas distintas na produção direta de habitação popular.
A sabatina evidenciou a estratégia do Executivo paulista de reajustar narrativas: diante de promessas não cumpridas, apresentam-se novas metas flexibilizadas; diante de gargalos persistentes, priorizam-se métricas de produção em detrimento da resolução definitiva dos problemas estruturais.
