Investigação Política

Passeio de lancha em Brasília: Flávio Bolsonaro e o jatinho da Covaxin

Revelações sobre encontro em lancha no Lago Paranoá e a ligação com negociações de vacinas na pandemia.

Na noite de 16 de julho de 2020, enquanto o Brasil registrava mais de mil mortes diárias por Covid-19, um jato executivo decolava de São Paulo rumo a Brasília. A bordo, empresários com interesse em fechar acordo de vacinas com o governo de Jair Bolsonaro. O contexto de urgência sanitária contrastava com eventos paralelos que viriam à tona, envolvendo figuras públicas e negociações de alto escalão. As informações são de reportagem de João Batista Jr., Ana Clara Costa e Breno Pires, da revista Piauí.

O país enfrentava um cenário sombrio da pandemia, com os números de mortos e infectados em constante ascensão. Àquela altura, a busca por vacinas era frenética globalmente, e o Brasil, sob um presidente negacionista, encontrava-se à margem das principais negociações. Empresas como a Pfizer e a Sinovac tentavam avançar com o Ministério da Saúde, mas sem sucesso. Nesse cenário, a Precisa Medicamentos, já fornecedora de testes rápidos e outros insumos ao governo, via uma oportunidade de estreitar seus laços com a gestão de Jair Bolsonaro, buscando garantir a produção da vacina indiana Covaxin no país.

Um passeio para azeitar negócios

Para facilitar as negociações com o governo, os empresários Danilo Trento e Francisco Maximiano, ligados à Precisa Medicamentos, organizaram um evento para o senador Flávio Bolsonaro. O objetivo era promover um encontro em uma lancha no Lago Paranoá, em Brasília, com a presença de três garotas de programa trazidas de São Paulo. O agente de viagens Raphael Barão foi o responsável por coordenar a logística do passeio, que envolveria também fornecimento de bebidas e petiscos.

O jatinho Embraer Phenom 300, fretado pelos empresários, aterrissou em Brasília com seis pessoas a bordo: Trento, Maximiano, Barão e as três acompanhantes. A festa na lancha ocorreria no dia seguinte, 17 de julho. Jornalisticamente, o dia amanhecia com as preocupações usuais sobre a pandemia. Por volta das 10h30, a estrutura para o evento na lancha, incluindo bebidas e petiscos, era descarregada. A embarcação, com cerca de 20 metros, esperava os convidados.

O senador Flávio Bolsonaro compareceu ao passeio acompanhado de seu amigo e sócio na época, Alexandre Santini, que operava uma franquia da Kopenhagen no Rio de Janeiro e que, posteriormente, foi investigado por envolvimento em esquema de lavagem de dinheiro. Durante o passeio, que incluiu uma parada em um restaurante flutuante para mais suprimentos, os presentes buscaram evitar a exposição a drones de vigilância. Flávio Bolsonaro e Santini chegaram a tirar a camisa. Em determinado momento, Flávio desceu à cabine com uma das acompanhantes, e a outra garota também fez o mesmo caminho.

O presente de luxo e o retorno a São Paulo

Ao final do passeio, por volta das 15h, Danilo Trento presenteou Flávio Bolsonaro com um relógio Rolex, que o senador passou a usar. Após o encerramento do encontro, Alexandre Santini solicitou carona no mesmo jatinho para retornar a São Paulo. A aeronave decolou de Brasília às 17h55, pousando em São Paulo às 19h13. Naquela mesma noite, o consórcio de imprensa divulgaria os dados diários de óbitos por Covid-19, somando 1.110 mortes no país.

A prática de utilizar serviços sexuais como moeda de troca ou para fins de lobby e corrupção não é novidade em Brasília. O contexto em que ocorreu o passeio revela uma engrenagem que vai além de transações financeiras. Relatos de ex-assessores parlamentares descrevem encontros discretos em lanchas e hotéis, com a oferta de serviços de prostituição a autoridades. Nestes eventos, as garotas de programa costumam ser revistadas e seus celulares confiscados para evitar vazamentos, com uma média de duas a três mulheres por convidado em embarcações de dois andares.

Uma reportagem anterior já havia associado Alexandre Santini a encontros de Flávio Bolsonaro com garotas de programa, mencionando também o recebimento de um relógio Rolex pelo senador, avaliado em R$ 305 mil e comprado por um advogado que representava interesses privados. Para reconstruir os fatos do passeio em lancha, a reportagem da Piauí conversou com diversas fontes, incluindo participantes e pessoas ligadas ao caso, além de analisar quebras de sigilo e dados aéreos.

A Barão Turismo e o escândalo da vacina Covaxin

Raphael Barão, proprietário da Barão Turismo, atuava como um concierge para os empresários Trento e Maximiano, organizando suas viagens e participando delas. Em 2020, sua agência recebeu cerca de R$ 4 milhões das empresas do grupo Precisa Medicamentos. Durante as investigações da CPI da Pandemia, surgiram suspeitas de que Barão possuía uma empresa nos EUA usada para lavar dinheiro de Trento.

Maximiano negou ter havido intermediação de Flávio Bolsonaro no acesso ao Ministério da Saúde ou aproximação com o presidente Jair Bolsonaro para referendar o negócio da Covaxin. Trento, por sua vez, admitiu ter participado de “eventos públicos” com Flávio Bolsonaro.

Flávio Bolsonaro defendeu publicamente a Precisa Medicamentos na CPI, parabenizando a empresa por supostamente economizar dinheiro público. No entanto, o contrato da Covaxin previa um valor por dose significativamente maior do que o oferecido por outras vacinas, como a da Pfizer e da AstraZeneca, levantando suspeitas de irregularidades. O servidor do Ministério da Saúde, Luis Ricardo Miranda, alertou sobre as discrepâncias, e o contrato acabou não sendo pago integralmente. Flávio Bolsonaro, contudo, ironizou as denúncias, argumentando que não houve corrupção se nenhum dinheiro foi pago.

Interesse em telecomunicações e financiamento do BNDES

Três meses após o passeio de lancha, a proximidade com Flávio Bolsonaro rendeu a Trento e Maximiano a oportunidade de serem recebidos pelo presidente do BNDES, Gustavo Montezano. O encontro virtual visava discutir linhas de financiamento para uma nova empresa de Maximiano no setor de telecomunicações, com a participação do senador. O BNDES explicou que houve reuniões, mas nenhum financiamento foi contratado, e Flávio Bolsonaro negou qualquer relação comercial com Maximiano, afirmando ter apenas pedido para que uma “boa ideia” fosse ouvida.

Flávio Bolsonaro demonstrava interesse pelo setor de telecomunicações, participando de viagens internacionais ligadas ao tema. Em janeiro de 2020, uma viagem de Flávio a Las Vegas coincidiu com a de Danilo Trento. A viagem, custeada pelos cofres do Senado, teve como objetivo promover o turismo brasileiro. Trento, convocado pela CPI, preferiu permanecer em silêncio sobre a possibilidade de ter viajado com o senador. Flávio Bolsonaro emitiu nota negando qualquer encontro ou vínculo com Trento em Las Vegas.

Posteriormente, Flávio Bolsonaro foi associado a encontros em cassinos em Miami, acompanhado de um amigo com quem é suspeito de manter uma sociedade em uma empresa de apostas. Informações apontam que o amigo sacou uma quantia expressiva em dinheiro vivo. Recentemente, O Globo noticiou que o mesmo amigo pagou para desativar links que o desfavoreciam, incluindo um que o ligava a cassinos e a Flávio Bolsonaro em Las Vegas. Até o fechamento da reportagem da Piauí, Flávio Bolsonaro não havia se manifestado publicamente sobre os desdobramentos.

Fonte:
Piauí
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