Solo sagrado da resistência operária paulista, o Estádio da Vila Euclides foi palco neste domingo do lançamento oficial da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência. Mais do que um ato político, o encontro resgatou a alma do movimento que desafiou a ditadura no ABC e que agora se mobiliza para garantir o que os petistas e aliados chamaram de “tetra” – um quarto mandato voltado à soberania e à justiça social.
O local não foi escolhido ao acaso. Foi ali que, em 1979, um jovem líder sindical subiu em uma mesa de bar emprestada para falar a milhares de trabalhadores sob a mira de fuzis e helicópteros da repressão. Ao discursar para a multidão, Lula conectou passado e presente:
“A emoção de hoje é uma emoção ímpar. É uma emoção que eu estou sentindo muito mais forte do que a que eu senti em 1979 aqui mesmo nesse estádio”.
A narrativa do evento reforçou que a democracia brasileira foi “escalada” nas fábricas de São Bernardo. O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) resumiu o espírito do dia: “Na Vila Euclides aqui quem faz o gol é a democracia. (…) Foi aqui que o time entrou não para empatar, porque jogou contra a ditadura, contra a opressão”.
Pelas mãos das mulheres e dos Invisíveis
O rastro humano e social das políticas públicas dominou as falas. A primeira-dama Janja Lula da Silva trouxe à memória o papel das mulheres que, desde 1979, sustentaram a base do movimento, e dedicou sua fala a Dona Marisa Letícia, responsável por bordar a primeira bandeira do partido. Sob aplausos, afirmou: “Nós as mulheres as da Silva, as Pereira, as Souza… Somos a maioria da população, somos a maioria do eleitorado, somos as guardiãs da democracia”.
A pauta social ganhou força com promessas de continuidade no combate à fome e na expansão da educação pública. O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, lembrou a necessidade de reformar o parlamento para que o povo pobre deixe de ser figurante na política. Em crítica direta ao modelo que prioriza o lucro sobre a vida, oradores defenderam o fim da escala 6×1 e a valorização real do salário mínimo.
Reindustrialização e segurança: o projeto para o Brasil
Alckmin citou a retomada de fábricas que haviam fechado sob governos neoliberais, como a Mercedes-Benz e a Ford, hoje voltadas à produção de veículos elétricos e tecnologia nacional: “Onde tinha Mercedes hoje está GWM produzindo veículos… Onde estava a Ford hoje está a BYD”.
Lula também avançou em propostas estruturantes, como a criação do Ministério da Segurança Pública para combater o crime organizado de forma federativa, dividindo responsabilidades com estados e municípios. “Nós vamos libertar o povo prendendo todo mundo que acha que é dono de uma favela ou de um bairro pobre”, declarou o presidente.
Ao encerrar o ato, Lula personificou a resiliência de quem enfrentou perseguições e cárcere para retornar ao ponto de partida. Em um diálogo imaginário com o Lula de 1979, resumiu o espírito da campanha: “Companheiro, eu sei que seu coração está apertado… Mas vai dar tudo certo. (…) Você vai ganhar uma, duas, três eleições para presidente e vamos ganhar mais uma”.
Com o apoio de uma frente ampla que vai do PDT ao PSOL, Lula deixou o ABC com a missão de transformar a esperança de 1979 na vitória de outubro, prometendo que “quem manda no Brasil é o povo, não é o dinheiro”.



