Ciência

Revista Pesquisa Fapesp: mudanças em 2026 geram incertezas para ciência e trabalhadores

Mudança impacta jornalismo científico e leva à demissão de 24 profissionais, marcando o fim de um ciclo.

A decisão de descontinuar a edição mensal impressa da Revista Pesquisa Fapesp marca uma inflexão significativa na trajetória de um dos mais longevos projetos de jornalismo científico do país. Após 26 anos de circulação ininterrupta, a publicação deixará de existir no formato que a consolidou como referência nacional na cobertura da produção científica brasileira.

Mudança de rumo editorial

A equipe foi comunicada de que a revista deixará de ter edição mensal impressa e que a estratégia de comunicação passará a se concentrar em uma nova plataforma digital. De acordo com explicação formal publicada pela própria fundação — “Fapesp cria plataforma de divulgação científica” — a iniciativa busca integrar e modernizar os canais de comunicação, ampliando o alcance das informações sobre pesquisas financiadas pela fundação.

Na prática, segundo profissionais da revista, o novo modelo aproxima a divulgação científica da lógica já adotada pela Agência Fapesp, com foco mais direto nos projetos apoiados pela fundação. O projeto editorial que caracterizou a revista — baseado em reportagens aprofundadas, independência temática e cobertura da ciência brasileira de forma ampla — tende a ser descontinuado.

Impacto sobre os trabalhadores

Além da mudança editorial, a reformulação poderá implicar na dispensa de 24 profissionais, entre jornalistas, editores e equipe técnica. Para os trabalhadores, o momento é descrito como de tristeza e frustração.

Ao longo de mais de duas décadas, a revista consolidou um modelo de jornalismo especializado reconhecido pela qualidade das reportagens, pela linguagem acessível e pela capacidade de traduzir temas complexos para o público não acadêmico. Tornou-se referência não apenas para pesquisadores, mas também para professores, estudantes, gestores públicos e formuladores de políticas científicas.

Ciência e trabalho em debate

A mudança suscita reflexões sobre os modelos de financiamento e de institucionalização da divulgação científica no Brasil. Ao concentrar esforços na comunicação de pesquisas financiadas pela própria fundação, a nova plataforma tende a reduzir o espaço para uma abordagem mais abrangente da ciência nacional.

Para os trabalhadores da revista, além dos postos de trabalho, a perda é de um projeto editorial que ajudou a construir pontes entre a comunidade científica e a sociedade. Perde a ciência, porque perde um espaço plural de debate e divulgação qualificada. E perdem, sobretudo, os trabalhadores que dedicaram anos à construção dessa trajetória.

A reformulação ainda está em curso. O que já se sabe é que se encerra um ciclo de 26 anos que marcou a história da divulgação científica no Brasil, abrindo espaço para um novo modelo cuja efetividade e alcance ainda serão postos à prova.Clique aqui e receba o Radar pelo whatsapp.


* O Radar Democrático publica artigos de opinião de autores convidados para estimular o debate.

Rogério Bezerra
Rogério Bezerrahttps://gravatar.com/creatorloudly177c571905
Geógrafo, Mestre, Doutor e Pós-doutor em Política Científica e Tecnológica pela Unicamp. Foi Diretor de Pesquisa Aplicada da Fundacentro. Coordenador do Movimento Pela Ciência e Tecnologia Pública. Atua especialmente em temas relacionados à análise e avaliação de políticas públicas.

5 COMENTÁRIOS

  1. É um absurdo a descontinuação de um trabalho de décadas, sempre realizado com extrema competência por profissionais qualificados e dedicados, buscando sempre a excelência.
    Como sempre, existe a interferência daqueles que menosprezam a ciência.
    Lamentável, pois é um trabalho de reconhecimento internacional.

  2. Eu acredito que essa n9va implementação de divulgação científica por um único canal, (digital) prejudica o acesso as comunidades carentes que utilizam-se das bibliotecas públicas e ou comunitárias.
    Aparte disso a revista impressa resulta atrativos para os leitores de mais de 69 anos , como também para os leitores em transito (ônibus, avião).
    Espero sinceramente que reconsiderem as perdas na divulgação científica para toda a sociedade.

  3. Eu acredito que essa nova implementação de divulgação científica por um único canal, (digital) prejudica o acesso as comunidades carentes que utilizam-se das bibliotecas públicas e ou comunitárias.
    Aparte disso a revista impressa resulta atrativos para os leitores de mais de 60 anos , como também para os leitores em transito (ônibus, avião).
    Espero sinceramente que reconsiderem as perdas na divulgação científica para toda a sociedade.

  4. Triste e frustrante é pouco. Sou fã e assinante da revista e reconheço o quanto ela é uma ferramenta fundamental no combate à desinformação. A ciência já enfrenta um cenário preocupante de descrédito, e é ainda mais lamentável ver isso acontecer com uma das publicações mais respeitadas da área. Em vez de fortalecer iniciativas como essa, a FAPESP parece seguir na direção contrária. É importante destacar que a Agência FAPESP não cumpre o mesmo papel que a revista, são propostas distintas, com impactos diferentes. A Revista tem uma qualidade editorial e uma profundidade que a tornam muito superior e insubstituível. É realmente uma decisão difícil de compreender.

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