Em alusão ao Dia do Rio Piracicaba, 15 de abril, será realizada uma Audiência Pública no Plenário da Câmara de Piracicaba para apresentar e discutir o projeto de concessão para a ampliação do sistema de captação e distribuição de água da Bacia PCJ, através do Sistema Adutor Regional (SAR-PCJ).
A pedido das vereadoras Rai de Almeida (PT) e Silvia Morales (PV) o evento reúne autoridades locais, especialistas em recursos hídricos, representantes da sociedade civil e agências reguladoras para analisar o impacto de uma das obras de infraestrutura hídrica mais ambiciosas das últimas décadas.
O Que é o SAR-PCJ
O Sistema Adutor Regional é projetado para ser a “espinha dorsal” do abastecimento nas Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. O objetivo central é interligar mananciais e sistemas de distribuição para garantir que, mesmo em períodos de estiagem severa, os municípios da bacia não sofram com o desabastecimento.
O sistema promete o transporte de água de áreas com maior disponibilidade para regiões em estresse hídrico. Entretanto, a proposta prevê uma Parceria Público-Privada (PPP) para viabilizar os investimentos bilionários necessários para a construção das adutoras e estações de bombeamento. O projeto busca reduzir a pressão sobre o Rio Piracicaba em momentos críticos, utilizando cavas e reservatórios estratégicos.
O Rio Piracicaba como Protagonista
A escolha da data não foi por acaso. O Rio Piracicaba, que historicamente sofre com a sazonalidade e a poluição, é o coração do ecossistema regional. “Celebrar o Rio Piracicaba hoje é pensar em como vamos mantê-lo vivo e funcional para as próximas gerações”, comenta a vereadora Rai de Almeida, uma das propositoras da audiência.
No Dia do Rio Piracicaba, data que deveria celebrar a vitalidade e a história de um dos corpos d’água mais emblemáticos do país, o debate sobre o Sistema Adutor Regional (SAR-PCJ) traz à tona uma ironia amarga: “estamos planejando ‘curar’ a escassez com mais infraestrutura de transporte, enquanto o “paciente” — o próprio rio — agoniza com a falta de cuidado na origem”, comenta a vereadora.
A Lógica da “Água Infinita” e o Efeito Tampão
O SAR-PCJ é apresentado como a salvação da lavoura, uma rede de adutoras que interliga bacias para que ninguém fique sem água. No entanto, essa lógica trata a água meramente como uma commodity transportável e não como um ciclo ecológico. Ao investir bilhões em tubulações para buscar água cada vez mais longe, o poder público corre o risco de criar um “efeito tampão”, mascarando a necessidade urgente de recuperação de nascentes e preservação de matas ciliares no próprio Rio Piracicaba.
A concessão via Parceria Público-Privada (PPP) levanta o sinal amarelo sobre o custo social da água. Transformar a gestão de sua distribuição em um modelo de lucro privado pode, a longo prazo, excluir as populações mais vulneráveis através do aumento de tarifas, priorizando o abastecimento industrial e o agronegócio em detrimento do consumo humano básico e do equilíbrio ambiental.
Nisso tudo, o Rio Piracicaba como coadjuvante de seu próprio sistema. É contraditório celebrar o rio enquanto o projeto foca na retirada e no remanejamento de seus recursos. O SAR-PCJ foca na distribuição, mas pouco se fala, com a mesma intensidade de investimento, em saneamento básico universal e na despoluição real dos afluentes.
“De que adianta uma adutora moderna se o que corre dentro dela é o reflexo de um rio sobrecarregado e maltratado?, interpela Rai.
Soluções Baseadas na Natureza
Enquanto o mundo caminha para as Soluções Baseadas na Natureza (SbN) — como a restauração de áreas de recarga de aquíferos e cidades esponja — o SAR-PCJ aposta na “engenharia pesada” do século XX. O sistema é uma solução rígida para um clima cada vez mais volátil. Se os mananciais que alimentam a rede secarem devido ao desmatamento e às mudanças climáticas, teremos uma rede bilionária de canos vazios.
“Neste Dia do Rio Piracicaba, a celebração deveria ser acompanhada de um pedido de desculpas. O SAR-PCJ pode até ser uma necessidade técnica imediata para evitar o colapso das torneiras, mas ele é, acima de tudo, um atestado de falha. É a prova de que não soubemos cuidar do rio a ponto de precisarmos criar um sistema artificial para compensar nossa negligência ambiental”, complementa Rai de Almeida.
