Educação e Gestão Pública

Haddad em São Paulo: educação, Sabesp, violência policial e o plano para derrotar Tarcísio

Ex-ministro da Fazenda denuncia uso da força policial e entrega de serviços essenciais ao lucro em São Paulo.

A educação pública em São Paulo tornou-se o principal campo de batalha entre dois projetos de estado. De um lado, a universidade que finalmente abriu as portas para o povo; de outro, um governo que responde a essa mudança com o “pior dos expedientes”: a violência estatal.

O diagnóstico de Fernando Haddad (PT), ex-ministro da Educação e da Fazenda, pré-candidato a governador de São Paulo, em sua recente passagem pelo interior paulista é certeiro: o governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) demonstra uma “falta de cuidado” deliberada ao lidar com as universidades. O motivo é claro. Haddad destaca que, hoje, entre 60% e 70% dos estudantes das universidades públicas são egressos da escola pública.

Essa mudança de perfil não é apenas estatística; ela gera novas demandas por moradia e restaurantes universitários, itens essenciais para que o filho do trabalhador permaneça no campus. No entanto, em vez de sentar à mesa de negociação — o “lugar mais privilegiado” para o entendimento, segundo o ex-ministro — o Palácio dos Bandeirantes optou por bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo na reitoria da USP.

“Se na universidade não conseguimos projetar uma utopia de convivência, preciso abdicar dos meus sonhos de uma sociedade justa”, alertou Haddad, contrastando a repressão atual com seus sete anos à frente do MEC, onde greves históricas foram resolvidas sem que um único policial pisasse nos campi.

A raiz do abismo: o plano centenário de exclusão

Haddad trouxe uma perspectiva histórica que desmascara o caráter elitista da atual gestão. Ele recorda que o Brasil universalizou o ensino fundamental 50 anos depois da Argentina. Esse atraso foi um projeto: Haddad cita a Lei Saraiva (1885), que proibiu o voto de analfabetos três anos antes da abolição para garantir que os negros libertos continuassem sem voz política.

Hoje, essa exclusão se modernizou. O “mantra” de Haddad — investir da creche à pós-graduação — choca-se contra a visão da direita que tenta isolar os níveis de ensino para justificar cortes. Ao defender que “lucro em serviço essencial faz a qualidade desabar”, Haddad aponta o dedo para os “oportunistas” que, sob o pretexto de eficiência, precarizam o ensino superior particular e desregulamentam o EAD, transformando o direito ao saber em mercadoria de baixa qualidade.

Sabesp: a “Enel da água”

Se na educação o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) usa o cassetete, na gestão dos serviços essenciais a arma escolhida é a privatização desenfreada, muitas vezes sob o que Fernando Haddad classifica como um mero “pretexto fiscal”. Para o ex-ministro, o mercado financeiro utiliza o discurso do rigor nas contas públicas para abrir caminho para negócios de alta rentabilidade, como a venda da Sabesp, realizada em julho de 2024.

O termo “Enel da Água”, cunhado por Haddad, não é apenas um apelido, mas uma denúncia baseada em dados reais. Em 2025, a Sabesp atingiu a marca de 6.879 reclamações no Procon-SP, superando as 5.373 queixas da Enel, concessionária de energia que já é símbolo de mau atendimento na capital.

Haddad classifica a privatização da companhia como uma “lambança” que deixou o consumidor desamparado. O ex-ministro aponta que o governador prometeu reduzir tarifas, mas o que se viu foi o aumento dos custos para as famílias e a precarização do serviço, exemplificada por tragédias como a explosão de gás no Jaguaré, que resultou em duas mortes e destruição de moradias durante obras da empresa. Haddad afirma que, se eleito, irá averiguar as cláusulas contratuais para garantir a proteção do consumidor contra o que chama de estelionato tarifário.

O ecossistema “BolsoMaster”

Um dos pontos mais sensíveis dos bastidores políticos é a conexão entre o senador Flávio Bolsonaro, o banqueiro Daniel Vorcaro (Banco Master) e o atual governo paulista. Haddad afirma acompanhar irregularidades no Grupo Master há dois anos, apontando que a instituição teve “espaço para se desenvolver” sob a gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central.

As mensagens vazadas pelo site Intercept Brasil, que mostram Flávio Bolsonaro cobrando patrocínio de Vorcaro para um filme sobre Jair Bolsonaro, revelam, segundo Haddad, um “núcleo duro” ou “ecossistema” de benefícios mútuos. Esse cenário de suspeitas já reflete nas urnas: no dia em que os áudios vieram a público, pesquisas internas da campanha petista mostraram a diferença entre Haddad e Tarcísio cair para apenas 3,5 pontos percentuais. Ainda não está muito clara, mas há ligações entre o Banco Master, o governo paulista e as privatizações da Emae e da Sabesp.

O Drama Pesado: Celulares Roubados e a Praga das “Bets”

Por fim, Haddad conecta a macroeconomia ao sofrimento cotidiano do trabalhador, citando dois “dramas sociais” que o governo estadual ignora. Primeiro, a epidemia de insegurança: estima-se que 5 milhões de celulares já foram roubados no Brasil. “É um patrimônio pesado. A pessoa muitas vezes nem pagou a prestação do primeiro e já tem que comprar outro”, denunciou o ex-ministro, vinculando a ineficiência policial a uma crise de hierarquia interna na PM paulista provocada pela atual gestão.

Somado a isso, surge a crise das “malditas bets”. Haddad compara o vício em apostas online ao tabagismo e critica a desordem regulatória deixada pelo governo anterior, que permitiu que “oportunistas” lucrassem com o endividamento das famílias. Ele defende que o combate a essa dependência química e financeira deve ser tratado como uma questão de saúde pública urgente, e não apenas de arrecadação.

A frente democrática e o desafio de furar a bolha digital

O caminho para derrotar o projeto neoliberal de Tarcísio de Freitas (Republicanos) em 2026 não passa apenas pela denúncia dos retrocessos, mas pela construção de uma frente ampla e propositiva. Fernando Haddad sabe que a disputa exige maturidade política para unir nomes que lideram as pesquisas e simbolizam diferentes frentes da sociedade civil, do meio ambiente ao setor produtivo.

O plano de Haddad é consolidar a chapa até o início de junho, buscando o que chama de “solução natural” para acomodar as forças progressistas. Com a pré-candidatura de Simone Tebet (PSB) já confirmada e tratada como prioridade, o desafio agora é equacionar a segunda vaga ao Senado.

De um lado, a força ética e ambiental de Marina Silva (Rede/PSOL), que lidera as intenções de voto; de outro, a experiência de Márcio França (PSB), peça-chave na articulação estadual. “Temos nomes muito competitivos. Vamos discutir com maturidade para chegar a um entendimento”, afirmou Haddad, sinalizando que a prioridade é a unidade do campo democrático para enfrentar a máquina estadual.

Diálogo com o Interior: O Fator Teka Vendramini

Um dos pontos vitais é a penetração no interior paulista, reduto histórico do conservadorismo. A estratégia de Haddad para “furar a bolha” do agronegócio passa por Teresa Vendramini (Teka), ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira.

Diferente das especulações iniciais, Teka não ocupará a vaga de vice, mas terá a missão estratégica de coordenar a elaboração do plano de governo na área de produção. A ideia é construir um programa que mostre ao produtor rural que o desenvolvimento social e o investimento público são motores para a economia real, contrastando com o modelo extrativista e financeirizado do atual governo.

O “7 a 1” nas redes e o otimismo matemático

Haddad não ignora a vantagem da extrema-direita no campo tecnológico. Em palestra na USP São Carlos, ele admitiu que a esquerda está “tomando 7 a 1” nas redes sociais na última década. Ele atribui essa desvantagem ao pesado investimento financeiro da direita em plataformas digitais, defendendo que o campo progressista precisa de “criatividade” para conquistar espaço e combater a desinformação.

Apesar do cenário adverso nas pesquisas públicas (como a Paraná Pesquisas, que mostra Tarcísio com 13,8 pontos de vantagem), o clima interno na campanha petista é de otimismo. Um tracking (pesquisa menor para consumo interno) realizado em 13 de maio — mesmo dia em que vazaram os áudios de Flávio Bolsonaro — mostrou uma diferença de apenas 3,5 pontos percentuais. A equipe de Haddad acredita que, com o início da exposição eleitoral e o debate sobre a ausência de “entregas de grande impacto” de Tarcísio, a virada é matematicamente viável.

Um projeto de Estado, não de mercado

Ao encerrar suas palestras, Haddad reforça que seu objetivo não é ser um “preposto” de interesses particulares, mas um dirigente que olha para o interesse geral do país e do estado. O foco em 2026, seja em um “salto mais alto” em São Paulo ou na consolidação do projeto federal, é garantir que o Brasil entre em um ciclo longo de desenvolvimento.

Para o trabalhador paulista que sofre com a “Enel da Água” ou com o roubo de celulares, a mensagem de Haddad é de resiliência: “Desarmem-se, vai dar tudo certo”. A meta é clara: retomar São Paulo para o povo e provar que a educação e a justiça social são os únicos caminhos para uma sociedade verdadeiramente moderna.

FAÇA UM COMENTÁRIO

Por favor, escreva seu comentário!
Por favor, escreva seu nome

Últimas notícias

Análise: fatores que levam eleitores à direita

Por Norian SegattoNa segunda-feira, após o tsunami eleitoral, passei...

Tarcísio consolida base ampla, mas oposição cresce; veja a lista de deputados estaduais eleitos em SP

A reeleição do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), com...

Fundador da revista Piauí dá a lista dos ricaços envolvidos com o projeto fascista

O fundador da revista Piauí, Joao Moreira Salles publicou...

Especialistas do agro declaram apoio a Lula em manifesto

Um manifesto intitulado "O Agro está com Lula" reuniu...

Debate em SP: veja os principais pontos do confronto entre Haddad e Tarcísio na Globo

O confronto direto entre Fernando Haddad (PT) e Tarcísio...

Topics

Análise: fatores que levam eleitores à direita

Por Norian SegattoNa segunda-feira, após o tsunami eleitoral, passei...

Fundador da revista Piauí dá a lista dos ricaços envolvidos com o projeto fascista

O fundador da revista Piauí, Joao Moreira Salles publicou...

Especialistas do agro declaram apoio a Lula em manifesto

Um manifesto intitulado "O Agro está com Lula" reuniu...

Tribunal mantém direitos dos bancários da Caixa e encerra greve

A Seção Especializada em Dissídios Coletivos (SDC) do Tribunal...

O debate esperado por Haddad

A seis dias da eleição e com pesquisas mostrando...

Quando a poesia desacelera o mundo: “Café com Leni”

Por Rogério Bezerra da SilvaHá encontros que acontecem entre...
Fenae 55 anosFenae 55 anosFenae 55 anosFenae 55 anos

Related Articles