O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, pode ser o maior prejudicado pela omissão da relação entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o banqueiro Daniel Vocaro, dono do Banco Master. Se políticos de direita soubessem antes do telhado de vidro de Flávio, poderiam ter feito pressão para que o candidato da direita à presidência fosse Tarcísio. Agora é tarde. Tarcísio se manteve no cargo de governador após o prazo para desincompatibilização e por isso só tem duas alternativas legais: se candidatar à reeleição ou não disputar nenhum cargo.
Para evitar mais desgastes a seu nome, e talvez com algum ressentimento, o governador de São Paulo tem optado por um distanciamento estratégico em relação a Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência. Diante do escândalo do Banco Master e da produção do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro, Tarcísio busca assim resguardar sua própria imagem e seus planos políticos.
Um interlocutor próximo a Flávio Bolsonaro mencionou que o silêncio do senador após a prisão de Daniel Vorcaro em novembro de 2025 chamou atenção. O período em que Flávio esteve em viagem pela França e pelo Oriente Médio, entre janeiro e fevereiro, é visto por alguns como uma estratégia para esfriar o tema e reduzir a pressão política. No entanto, as revelações posteriores, como a do áudio em que Flávio cobra Vorcaro, trouxeram o assunto de volta com força, pegando o partido e seus aliados de surpresa.
Integrantes do PL e aliados de Tarcísio de Freitas expressam desconforto com as novas informações sobre Flávio Bolsonaro. A proximidade entre o senador e Daniel Vorcaro, evidenciada por áudios e mensagens vazadas, tem gerado questionamentos sobre a origem e a destinação de vultosos recursos. O caso, que já chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF) com pedidos de investigação, traz à tona a possibilidade de uso indevido de emendas parlamentares e outras irregularidades financeiras. A situação coloca o PL em uma posição defensiva e aumenta a pressão sobre Flávio Bolsonaro.
Tarcísio evita agendas e minimiza relação
Diante do cenário, Tarcísio de Freitas tem se esquivado de compromissos conjuntos com Flávio Bolsonaro. Em diversas ocasiões, o governador de São Paulo alegou agendas próprias no interior do estado para justificar ausências em eventos com o senador. Quando questionado sobre o caso Vorcaro, Tarcísio tem minimizado a situação, ao afirmar que “isso não é pauta” ou que Flávio “procurou dar todos os esclarecimentos”. Essa postura cautelosa demonstra a tentativa de se desvincular de um escândalo que ganha contornos cada vez mais sérios e que pode comprometer a candidatura de Flávio Bolsonaro e a articulação política do PL.
A crise em torno de Flávio Bolsonaro também repercute nos setores empresarial e financeiro. Empresários paulistas ouvidos pela CBN relataram preocupação com os desdobramentos do caso, que geram incertezas e levam a revisões de planejamentos. Existe a avaliação de que o mercado está “nervoso e com falta de confiança”, com a percepção de que Flávio “perdeu muita força”. Paralelamente, a intenção de votos de Flávio Bolsonaro entre o eleitorado evangélico, um público fundamental, teria sofrido uma queda significativa, o que abre espaço para discussões sobre possíveis substitutos na chapa presidencial.
O PL tem avaliado cenários e cogita nomes como Michelle Bolsonaro surgindo como opções para manter o eleitorado evangélico. A estratégia do partido é buscar conter a debandada de aliados, como Tarcísio de Freitas, para preservar a coalizão estadual e a meta de ampliar a bancada na Câmara dos Deputados em 2027. Flávio Bolsonaro tem cerca de 15 dias para se explicar e mostrar que ainda tem força eleitoral suficiente para enfrentar Lula. Se a extrema-direita decidir lançar outro candidato, Tarcísio perceberá que perdeu sua grande chance.



