Saúde Pública

Prefeitura de Campinas precisa enfrentar as filas com gestão, transparência e prioridade

Guida Calixto (PT) argumenta que prefeitura foca em transferir responsabilidade em vez de solucionar filas de cirurgias.

Por Guida Calixto

Tem pessoas, irresponsáveis ou incompetentes (ou ambos) que, ao serem pegos em flagrante, tentam transferir o problema para terceiros…

A Secretaria Municipal de Saúde tenta transferir ao Ministério da Saúde a responsabilidade pelas enormes filas de cirurgias em Campinas. Em vez de apresentar um plano consistente para enfrentar o problema, anuncia a intenção de acionar judicialmente o Governo Federal para exigir reajuste da Tabela SUS (veja aqui).
É verdade que a Tabela SUS é defasada, que o SUS é subfinanciado e que os municípios assumem uma parcela alta dos gastos em saúde. Nosso mandato tem denunciado esse desfinanciamento crônico, inclusive em debate recente na Câmara. (acompanhe aqui). Mas não é aí que reside o problema. Em Campinas, ela vem sendo usada como cortina de fumaça para esconder problemas graves de gestão, planejamento e organização da rede municipal.

O Ministério Público move ação civil pública contra a Secretaria de Saúde para garantir cirurgias ortopédicas a pessoas que esperam há anos. Segundo o MP, a fila passou de 3.629 pacientes, em setembro de 2023, para 4.622 em abril de 2026 — crescimento de 27%. Há pacientes aguardando desde 2014, convivendo com dor, perda de autonomia, dificuldade de trabalhar e piora da qualidade de vida.

E a ortopedia é apenas a face mais visível de uma crise maior. Como o Conselho Municipal de Saúde e nosso mandato vêm denunciando há anos, há filas imensas para cirurgias gástricas, neurológicas, oculares, consultas especializadas e exames. As filas que antes apareciam nos Centros de Saúde desapareceram… por que foram resolvidas? Não, migraram para o Sistema de Regulação Municipal e seguem crescendo.

Por isso, nosso mandato apresentou projeto de lei para garantir transparência: cada usuário deve saber seu lugar na fila e o tempo estimado de espera (leia aqui). Fila não pode ser tratada como segredo administrativo nem como fatalidade.

Também questionamos a Secretaria sobre a baixa efetividade, em Campinas, do programa federal “Aqui Tem Especialistas”, que tem ampliado atendimentos em diversos lugares do país. As respostas da Secretaria aos nossos questionamentos não foram convincentes. Se o problema fosse apenas a Tabela SUS, por que vários estados e outros municípios conseguiram aderir a mutirões, ampliar procedimentos e aproveitar melhor programas federais e estaduais, enquanto Campinas viu sua fila crescer?

O Ministério da Saúde, por meio do Agora Tem Especialistas, organizou mutirões para reduzir filas de cirurgias, exames e consultas especializadas, mobilizando hospitais universitários, Santas Casas, hospitais filantrópicos e unidades federais. Segundo o Ministério foram feitas mais de 14,7 milhões em 2025 de cirurgias eletivas, um recorde histórico, que representa um aumento de 42% em relação a 2022. Esse crescimento é de 79% na Paraíba, 64% no Ceará, 63% em Minas Gerais e 57% no Rio de Janeiro.

No componente cirúrgico, a adesão exige programação de cirurgias, pactuação em CIB (Comissão Intergestores Bipartite, que é a principal mesa de negociação e decisão conjunta entre os gestores estaduais e municipais de saúde), definição de demanda, quantidade de procedimentos e gestores executores. A quantidade de dinheiro transferido depende do número de procedimentos realizados. A Secretaria fez essa pactuação de forma adequada? As respostas enviadas ao nosso mandato indicam que não.

Não se trata de negar a necessidade de mais financiamento federal. Ele é necessário. Também é preciso cobrar o governo do estado de São Paulo, que participa pouco do financiamento local e tem responsabilidades na média e alta complexidade, na regulação regional e na ampliação da oferta especializada. Em Campinas, os recursos estaduais não chegam a 5% do total de gastos do SUS municipal. Os do Governo Federal são 5 vezes maiores (em torno de 25% do total de gastos). E, ademais, houve aumento de 16,2% dos repasses federais para a Saúde de Campinas desde 2021, segundo o Ministério.

Até parece aquela caricatura de eleitor: “E o PT?” “E o Lula?” Será que estas perguntas também estariam na boca de dirigentes quando querem esconder suas incompetências?

Ou seja, a omissão estadual e a defasagem da Tabela SUS não absolvem a Prefeitura. Bora deixar as “fake-news” de lado e enfrentar os problemas de frente?

Em Campinas, faltaram planejamento, articulação regional, capacidade de contratação, uso adequado dos programas disponíveis e metas públicas para reduzir filas. O próprio Ministério Público afirma que, nos últimos anos, não foi apresentado um plano estrutural capaz de enfrentar o problema. As medidas adotadas foram pontuais, insuficientes e incapazes de absorver a demanda acumulada.

Há ainda problemas concretos de falta de leitos hospitalares, reconhecido pelo próprio governador do Estado, que promete, para um futuro indeterminado a sua resolução. A falta de leitos fica evidenciada quando cirurgias eletivas são interrompidas por urgências, emergências e superlotação. Soma-se a isso a fragmentação entre a Secretaria Municipal de Saúde e a Rede Mário Gatti, que funcionam sob lógica de duplo comando, dificultando planejamento integrado, regulação, definição de prioridades e uso racional dos recursos.

Outro ponto central é o modelo de gasto. Campinas gasta muito, mas gasta mal: grande parte do orçamento municipal da saúde está comprometida com prestadores conveniados e serviços terceirizados. Quando contratos fragmentam partes estratégicas do cuidado, a capacidade pública de coordenar a rede diminui. A terceirização, que deveria ser complementar, passa a organizar o funcionamento do sistema.

O resultado é conhecido: fragmentação, perda de continuidade, dificuldade de responsabilização, alta rotatividade, precarização do trabalho e menor capacidade de resposta pública. Na prática, o usuário entra numa fila que ninguém parece comandar plenamente.

Nosso mandato vem insistindo nesse ponto: Campinas precisa parar de tratar as filas como fatalidade. Fila é resultado de escolhas políticas, capacidade de gestão, financiamento, organização da rede e prioridade dada — ou não — às necessidades da população.

O mandato tem apontado caminhos: fortalecer a rede pública, ampliar a Atenção Primária, reduzir a dependência de terceirizações, enfrentar o duplo comando entre Secretaria e Rede Mário Gatti, ampliar a capacidade hospitalar, garantir transparência nas filas e usar as emendas parlamentares de forma participativa, em diálogo com o Movimento Popular de Saúde e os conselhos locais.

O caso da ortopedia mostra que Campinas precisa de um plano emergencial e estrutural para todas as cirurgias eletivas, começando pelos pacientes que aguardam há mais tempo e pelos casos de maior gravidade funcional. Esse plano deve ter fila pública, critérios transparentes, metas mensais, mutirões, melhor uso dos programas federais e estaduais, articulação com hospitais universitários e filantrópicos, fortalecimento da rede própria e prestação de contas periódica ao Conselho Municipal de Saúde.

O que está em jogo não é uma disputa burocrática entre Município, Estado e União. O que está em jogo é o direito das pessoas de andar, trabalhar, cuidar de si, viver sem dor e recuperar sua autonomia. O usuário não pode ser jogado de uma esfera de governo para outra enquanto espera anos por uma cirurgia. Por isso nos reunimos recentemente, antes da crise vir à tona com a denúncia do MP, com a direção da Rede Mário Gatti e com representante do Ministério para ampliarmos leitos ortopédicos no Ouro Verde. Foi coincidência ou acaso? Não. Foi apenas capacidade de se perceber a necessidade de soluções estruturadas, o que se espera de um gestor responsável e que cabe a quem é vereadora em Campinas ajudar a construir saídas.

Campinas já foi referência nacional em saúde pública e pode voltar a ser. Mas, para isso, precisa abandonar a lógica de improviso, terceirização e transferência de responsabilidade. Precisa assumir que fila se enfrenta com planejamento, financiamento, gestão, transparência e decisão política.

Nosso mandato continuará cobrando mais financiamento para o SUS dos governos federal, estadual e municipal. Mas Campinas também precisa fazer a sua parte. A crise das filas não é apenas falta de dinheiro: é principalmente falta de gestão.

Guida Calixto. Foto: Vinicius Barbosa Alves / Câmara de Campinas
Foto: Vinicius Barbosa Alves / Câmara de Campinas

Guida Calixto é vereadora pelo PT em Campinas



* O Radar Democrático publica artigos de opinião de autores convidados para estimular o debate.

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