Por Cidinha Santos
No dia 1º de agosto, debaixo do céu aberto e entre as alamedas silenciosas do Cemitério da Consolação, encerrou-se o curso livre “Viver e Morrer em São Paulo: uma história de São Paulo a partir do Cemitério da Consolação”, realizado pelo Espaço Cult. A última aula não foi apenas um encerramento acadêmico, mas uma experiência imersiva de leitura da cidade através de seus monumentos e memórias.
Guiada pelo historiador Lindener Pareto — doutor em História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo pela USP —, a caminhada transformou o primeiro cemitério público da capital paulista em um arquivo vivo. Ao longo do percurso, a arquitetura tumular, as esculturas de mestres como Brecheret e Ramos de Azevedo e as trajetórias das figuras ali sepultadas deixaram de ser apenas registros do passado para se tornarem chaves de leitura da formação social, política e cultural de São Paulo.
O grande triunfo do encontro, contudo, esteve na forma como o tema foi conduzido. Falar sobre a morte e os rituais de passagem costuma carregar um peso solene ou sombrio. Lindener Pareto, com uma sensibilidade acadêmica ímpar, subverteu essa expectativa. Com extrema leveza, elegância e nitidez, o professor conduziu o grupo por um debate profundo sem jamais torná-lo denso ou desconfortável.
Essa leveza se refletiu diretamente no grupo. O formato ao ar livre e a condução generosa do professor abriram espaço para uma intensa troca entre as pessoas participantes. Observações, memórias afetivas, dúvidas e percepções individuais teceram um diálogo coletivo que enriqueceu cada parada do trajeto. A aula deixou de ser uma exposição unilateral para se transformar em uma construção compartilhada de conhecimento, onde cada olhar somava uma nova camada de sentido ao espaço.
A escolha de realizar essa aula final em um espaço público e aberto ressaltou a vocação da história para ser vivida no território. Em vez de entre paredes, a aula aconteceu no ritmo dos passos, sob a luz do sol e alimentada pela participação ativa de todos — provando que falar da morte é, em última análise, falar sobre como decidimos viver, aprender e compartilhar em coletivo.
O encerramento do curso deixa um convite permanente: o de olhar para São Paulo com mais atenção, reconhecendo que mesmo nas pedras do silêncio há uma história viva que continua a nos interpelar.
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idinha Santos é jornalista, assessora de comunicação do Coletivo Feminista Classista Antirracista Maria vai com as Outras e dos movimentos sociais, Promotora Legal Popular (PLP) e cantante do Grupo Vozes.
* O Radar Democrático publica artigos de opinião de autores convidados para estimular o debate.



