O maior colégio eleitoral do país segue sendo o principal palco da disputa de narrativas no Brasil e o reduto mais sólido do projeto conservador. É o que mostra a pesquisa Genial/Quaest de julho de 2026: o retrato que emerge é o de um estado profundamente dividido, no qual o bolsonarismo segue hegemônico — sobretudo no interior — enquanto o governo federal esbarra em uma rejeição que segue como obstáculo às forças progressistas.
No cenário estimulado para o primeiro turno, Flávio Bolsonaro (PL) aparece na liderança, com 34% das intenções de voto, contra 30% do presidente Lula (PT). A distância é curta, mas o dado ganha peso quando se olha para a cristalização do voto: 77% dos eleitores de Lula e 71% dos eleitores de Flávio dizem que sua escolha já está definida, o que reduz o espaço para qualquer “terceira via” crescer. Na simulação de segundo turno, Flávio aparece com 40% contra 35% de Lula
Ainda assim, o eleitorado paulista segue distante do debate eleitoral formal: 57% dos entrevistados não indicaram um candidato de forma espontânea — um contingente expressivo de indecisos que segue fora do radar da mobilização política.
Classe, fé e território: as fraturas do estado
A pesquisa reforça divisões socioeconômicas e geográficas que já apareciam no resultado das urnas em 2022, quando Jair Bolsonaro venceu em 547 das 645 cidades paulistas, puxado por um interior fiel e consistente. Esse motor conservador segue funcionando: 73% dos eleitores que se identificam como bolsonaristas dizem votar em Tarcísio de Freitas para o governo do estado. Do outro lado, o campo progressista mantém seus cinturões de resistência na Capital — onde Lula venceu com 53,54% em 2022 — e no ABC paulista. O caso mais emblemático é São Bernardo do Campo, reduto histórico do lulismo, onde o presidente obteve 53,83% dos votos válidos em 2022. A resistência, porém, não é uniforme: na vizinha Santo André, o resultado se inverteu, com vitória de Bolsonaro.
Voltando à pesquisa, na segmentação por renda, o presidente lidera entre quem ganha até 2 salários mínimos (37% a 24% sobre Flávio), enquanto o campo bolsonarista domina as faixas de renda mais alta, acima de 5 salários mínimos. O mesmo padrão se repete na escolaridade: entre eleitores com ensino médio, Flávio tem 38% contra 25% de Lula — uma diferença de 13 pontos. Entre os que têm ensino superior, a distância cai para 5 pontos (33% a 28%). Já entre quem tem apenas o ensino fundamental, o quadro se inverte, com Lula na frente por 40% a 28%.
A religião segue como outra linha divisória nítida. Os católicos, que somam 45% da amostra, dão a Lula uma vantagem de 34% a 29% sobre Flávio. Já entre os evangélicos — 30% dos entrevistados —, o cenário se inverte com força: Flávio tem 48% contra apenas 18% de Lula.
A rejeição que pesa contra Lula
O dado mais preocupante — e que exige leitura crítica — é o tamanho da rejeição ao governo federal em solo paulista. O trabalho de Lula é desaprovado por 58% dos eleitores do estado (36% aprovam), e 64% dos paulistas acham que ele não merece ser reeleito. São números que abrem caminho para o avanço da extrema-direita em 2026.
Essa resistência se reflete diretamente nas simulações de segundo turno: Flávio Bolsonaro amplia sua vantagem para 40% a 35% sobre Lula. Em outras palavras, o projeto conservador não perdeu força em São Paulo desde a eleição passada — ele se mantém praticamente intacto.
O quadro paulista, porém, é uma exceção dentro do próprio Sudeste. Pesquisas da Genial/Quaest realizadas entre 10 e 13 de julho de 2026 mostram que, no cenário nacional, a desaprovação a Lula é de 51% (ante 44% de aprovação) — sete pontos abaixo da registrada em São Paulo —, e 60% dos brasileiros consideram que ele não merece um novo mandato, contra 36% que acham que sim.
No embate direto de segundo turno, o presidente aparece à frente de Flávio Bolsonaro por 45% a 37% no país como um todo. Minas Gerais segue padrão semelhante ao nacional: 53% desaprovam o governo Lula (42% aprovam), 60% dizem que ele não merece reeleição e, no segundo turno, o presidente também lidera numericamente em empate técnico por 38% a 35% — no estado.
Já o Rio de Janeiro ocupa uma posição intermediária, com 54% de desaprovação a Lula (43% de aprovação), enquanto Flávio Bolsonaro mantém forte competitividade em sua base eleitoral de origem. Os números se invertem a favor do filho 04: 38% para Flávio e 35% para Lula, em situação de empate técnico na simulação de segundo turno.
São Paulo, portanto, é o estado mais hostil ao governo federal entre os grandes colégios eleitorais do Sudeste — e o único, entre os citados, em que Flávio Bolsonaro efetivamente ultrapassa Lula no segundo turno.
Senado: o vácuo que ainda pode ser disputado
Se o Executivo já aparece relativamente definido, o Legislativo ainda é um cenário em aberto. No Cenário I testado pela pesquisa para as duas vagas ao Senado por São Paulo, nenhum nome ultrapassa os dois dígitos com folga: Marina Silva (Rede) lidera com 14%, seguida por Simone Tebet (PSB), com 12%. Depois aparecem Pablo Marçal (União), com 9%, Guilherme Derrite (PP), com 7%, e André do Prado (PL), com 5%. Os demais nomes testados — Paulinho da Força (Solidariedade), Ricardo Salles (Novo), Robson Tuma (Republicanos) e José Aníbal (PSDB) — oscilam entre 1% e 4%. Somados, indecisos (21%) e votos em branco, nulos ou de quem não pretende votar (20%) chegam a 41% do total.
Dados técnicos das pesquisas
- Amostra: 1.650 entrevistas presenciais e domiciliares (São Paulo) / aproximadamente 2.000 entrevistas (pesquisa nacional)
- Período: 23 a 27 de julho de 2026 (São Paulo) / 10 a 13 de julho de 2026 (Nacional, Minas Gerais e Rio de Janeiro)
- Margem de erro: 2 pontos percentuais
- Registros: BR-09998/2026 e SP-04846/2026 (São Paulo) / BR-07181/2026 (Nacional)
