**SABATINA NO SP1**
Entre a promessa e o dado: sabatina de Tarcísio expõe gargalos em segurança, obras e concessões em SP
Uma sucessão de confrontos entre o discurso oficial e os dados técnicos marcou a participação do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), na sabatina do jornal SP1, da TV Globo. Ao longo da entrevista, o chefe do Executivo paulista apresentou um balanço positivo de sua gestão, mas os indicadores de órgãos de controle, estudos do setor público e pelos próprios cronogramas oficiais do estado contradizem seu discurso.
O raio-X das respostas revela um padrão claro: diante de metas não atingidas, o governo projeta novas entregas; diante de falhas operacionais em serviços concedidos, recalibra o tom sobre privatizações; e, ao citar avanços em infraestrutura, recorre a dados antigos ou prazos que ultrapassam o horizonte de um eventual segundo mandato.
Segurança e presídios: o peso dos déficits acumulados
Na segurança pública, o anúncio de novas contratações esbarrou no tamanho do déficit das corporações. Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que, em 2025, o estado contava com 82.250 policiais militares para um quadro previsto de 93.801 (87,7% da capacidade). Na Polícia Civil, o cenário é similar: 19.420 agentes para 24.332 vagas estipuladas em lei (79,8%). Documentos do Tribunal de Contas do Estado (TCE) já alertavam para a urgência em recompor as fileiras, mostrando que as novas chamadas do governo atuam mais na reposição de baixas do que na ampliação real do efetivo.
No sistema prisional, a afirmação do governador de que a estrutura está “bem controlada” encontrou forte contraste nos relatórios de fiscalização do próprio TCE. Os números do tribunal revelam a gravidade do quadro:
- 74,7% das unidades prisionais operavam acima da capacidade máxima de lotação.
- 68,13% dos presídios analisados não contavam com bloqueadores de sinal de celular funcionais.
- 72% das unidades não possuíam Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB) dentro do prazo de validade.
Trilhos e concessões: cronogramas esticados
A mobilidade urbana trouxe divergências sobre o calendário das grandes obras de transporte sobre trilhos. Ao listar o que estaria em pleno funcionamento até 2030, Tarcísio incluiu projetos cujos prazos oficiais já avançam pela década seguinte. É o caso da extensão da Linha 2-Verde até Guarulhos (prevista para 2032), da Linha 13-Jade até Bonsucesso (2032) e da Linha 12-Safira até Suzano (2031). Na prática, entregas prometidas para um segundo mandato dependem de obras que superam o período de gestão.
O debate sobre as linhas concedidas à iniciativa privada produziu uma das inflexões mais marcantes da entrevista. Confrontado com a recente crise nas linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade — que exigiram a intervenção emergencial da estatal CPTM —, Tarcísio admitiu preocupação com a concentração de mercado nas mãos de poucas empresas e falou abertamente em rever contratos. Mais do que isso, reconheceu que o desempenho do Metrô estatal justifica a permanência da operação pública em determinadas linhas, moderando a retórica desestatizante que marcou o início de sua gestão.
Saneamento e regulação: a escolha dos números
No campo do saneamento, a defesa dos avanços pós-privatização da Sabesp no município de Guarulhos revelou o uso de um recorte temporal desatualizado. O governador mencionou que a cidade tratava apenas 2% do seu esgoto, mas a estatística citada remonta a 2017. Quando a Sabesp assumiu os serviços em 2019, o índice começou a subir, chegando a 18% no final de 2023 (início do mandato atual), saltando para 40% em 2025 e alcançando 48% em 2026. Ao resgatar o dado de nove anos atrás, o discurso atribuiu ao período recente uma evolução iniciada em gestões anteriores.
Por fim, a sabatina expôs as limitações na fiscalização das rodovias concedidas. A Artesp, agência encarregada da regulação, opera com estrutura reduzida para inspecionar milhares de quilômetros, enfrentando entraves para converter multas em penalidades financeiras pagas pelas concessionárias. Diante das cobranças, o governador atribuiu a demora à lentidão dos processos judiciais.
O balanço da sabatina desenha o retrato de um governo que, quando confrontado com metas frustradas ou falhas em parcerias privadas, busca reorganizar suas narrativas — seja flexibilizando prazos futuros, seja adaptando posturas diante dos limites da gestão.
