Claudinho Silva, ex-ouvidor da Polícia do Estado de São Paulo e figura combativa na defesa dos direitos humanos, denunciou veementemente a gestão do governador Tarcísio de Freitas na segurança pública, classificando-a como a responsável pela “pior situação da Segurança Pública que São Paulo já teve”. Em entrevista ao Radar Democrático, Claudinho detalhou a gravidade das operações policiais na Baixada Santista, que resultaram em dezenas de mortes e um “desmonte” da estrutura da Polícia Militar, culminando numa “política de morte de pobres da periferia”.
Nascido e criado na favela Monte Azul, zona sul de São Paulo, Claudinho Silva traz uma perspectiva única para a discussão. Sua trajetória inclui a militância no Movimento Negro Unificado desde os anos 90 e a coordenação de políticas para a juventude na gestão de Fernando Haddad (PT) na capital, período em que atuou em projetos como o “Juventude Viva” e articulou a integração da Casa Ângela (parto humanizado) ao SUS, enfrentando a violência obstétrica e promovendo a humanização do nascimento. Quando menino, morou na rua, cumpriu medida socioeducativa, foi engraxate. Essa vivência moldou sua postura intransigente na Ouvidoria, onde, segundo ele, “não dá mais para ter medo de cara feia mesmo que as pessoas estejam armadas”. Claudinho é filiado ao PT e é pré-candidato a deputado estadual.
Denúncias na Baixada Santista: “A Maior Barbaridade”
O período mais desafiador de seu mandato (2023-2025) como ouvidor, relata Silva, foi a atuação na Baixada Santista, com as operações Escudo e Verão. Segundo ele, foram os momentos de maior tensão, que classificou como “a maior barbaridade de Segurança Pública cometida por Tarcísio de Freitas”. As operações, que se seguiram à morte de um soldado da Rota, resultaram em mais de 80 mortes, com as famílias denunciando “atrocidades e muita violência psicológica, xingamentos, violência física e torturas e mortes”.
O ex-ouvidor criticou duramente o que chamou de “bloqueio da imprensa”, que, segundo ele, “só dava a versão da polícia e do governador”, enquanto a ouvidoria foi a campo para ouvir as vítimas. Silva relata que no Guarujá, onde historicamente ocorriam cerca de 12 mortes decorrentes de intervenção policial por ano, “a gente vivenciou no período de 3 dias 10 mortes”. A presença da ouvidoria foi decisiva: “Quando a gente vai ao Guarujá a primeira vez para ouvir famílias e visitar as comunidades e entender que ativamente a partir do relato das famílias o que estava acontecendo, a operação fica 10 dias sem matar ninguém.”
Claudinho Silva detalhou casos chocantes das operações:
“Uma pessoa que foi morta no Guarujá, ela estava recebendo o seguro-desemprego… tinha passagem pela polícia, mas estava recebendo seguro-desemprego, o que determina que trabalhava em trabalho regular, ela estava trabalhando. […] Esse garçom que foi morto, chamado Felipe, ele é um bom profissional e ele trabalhava até no período de inverno, o patrão dele não dispensava ele no inverno que é a baixa temporada nós tivemos esse rapaz que foi morto. […] Outro caso que é o caso do Cleiton, cabeleireiro. Teve um tiro no braço dele e ele perdeu os movimentos da mão e não conseguia segurar a tesoura. Como que ele segurou uma arma contra o tiroteio?”
Ele também questionou a dinâmica dos confrontos: “tem caso de morte praticadas a 80 cm, mas não tem [tiro] no barraco, não tem um tiro que possa, não tem tiro que sobrou. Nenhum policial, só um lado recebeu tiro, né? E não tem nenhum traço de tiroteio no lugar, né? O ouvidor ainda revelou o afastamento do DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa) dos casos, após um delegado ter informado à sua superiora que faria “um serviço sério naquele caso”.
Desmonte Institucional e o “Caos” da Segurança
A crítica de Silva se estende à gestão estadual como um todo. Ele aponta para um “desmonte da estrutura institucional da Polícia Militar” por parte do governo Tarcísio de Freitas, com a movimentação de 34 de 110 coronéis da cúpula da PM em uma “canetada só”. Essa ação, segundo ele, teve o objetivo de criar uma “Cúpula da polícia mais alinhada às ideias da ideologia trazida por ele para a segurança pública”, resultando em uma corregedoria “comprometida com as atrocidades”.
Para o ex-ouvidor, essa política é a receita para o fracasso. “O Tarcísio é unanimidade em relação à segurança, ele não tem respostas para o problema da segurança pública em São Paulo e ele é unanimidade [negativa] entre as tropas da polícia de São Paulo […] o que a gente vive hoje em São Paulo é o caos da segurança pública”, sentenciou. Ele citou o aumento expressivo da letalidade policial, a quase triplicação dos níveis de violência contra a mulher e o crescimento de organizações criminosas como evidências de uma política equivocada, que foca na “polícia turbulenta na rua” e ignora a “inteligência policial com base em dados, com base em evidências”.
Segurança pública transversal e humanizada
Claudinho Silva defende uma abordagem radicalmente diferente para a segurança pública, refutando a lógica de que “bandido bom é bandido morto”, que, segundo ele, “não funciona”. Ele propõe uma visão “transversal” da segurança, que integre diferentes políticas sociais:
“Quando uma mulher sai de casa para poder ir para o trabalho, você tem que encontrar uma rua iluminada da casa dela até o ponto de ônibus, ela vai ser mais ou menos segura, se a rua for iluminada? Com certeza, se sentirá mais segura. O fato da gente pensar que a segurança pública pode ser promovida por uma rua iluminada. Segurança Pública pode ser promovida pela ocupação dos espaços públicos, pode ser promovida por um centro cultural, construção de um bairro, centro cultural, em atividade de urna para garantir a lógica da autotutela das pessoas enquanto elas estão ali, ninguém vai se sentir à vontade de praticar o crime.”
O ex-ouvidor enfatizou a necessidade de “policiamento de proximidade” e “polícia de inteligência” para combater o crime organizado de forma eficaz, sem vitimar a população periférica. Ele também defendeu a aplicação efetiva da Lei de Execuções Penais, com acesso a “educação, cultura e trabalho no sistema de gestão penitenciária”, como forma de quebrar o ciclo da violência e evitar que o sistema prisional se torne um “plano família” para o crime organizado. Por fim, alertou a população para não se deixar enganar por “vendedores de segurança pública” com “discurso da solução fácil” em períodos eleitorais.
Veja a entrevista de Claudinho Silva, ex-ouvidor da Polícia de SP, na íntegra



