Por Rogério Bezerra da Silva
A democracia brasileira demonstrou a força de suas instituições e do povo ao consagrar a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva como presidente da República. Como ditor por Nunes Marques, Presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a “Justiça Eleitoral reconhece expressiva vitória de Lula nas urnas”, com 51,79% dos votos válidos, correspondendo a 64.256.232 votos. O candidato adversário, Flávio Bolsonaro, obteve 48,21% dos votos válidos, o que equivale a 59.826.041 votos. A vantagem expressiva de Lula de 4.430.191 votos no segundo turno refletiu a escolha consciente da maioria dos eleitores.
Lula recebeu cerca de 10,38 milhões de votos a mais em relação ao primeiro turno. Flávio Bolsonaro, por sua vez, cresceu aproximadamente 3,72 milhões de votos — um acréscimo que equivale a pouco mais da metade da soma acumulada no primeiro turno por Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Clariana Barão (DC), cujas candidaturas alcançaram juntas 6.420.248 votos.
Também segundo os dados do TSE, a abstenção caiu em relação ao primeiro turno: de 21,08% para aproximadamente 19,2%.
O resultado expressa a capacidade de mobilização do “Exército do Lula” e demonstra que a disputa eleitoral permanece aberta à mudança de preferência dos eleitores, mesmo em um ambiente de forte polarização. Como cantado por Leci Brandão, será que “está nascendo um novo líder, no morro do Pau da Bandeira”?
A vitória de Lula deve ser compreendida nesse contexto: a maioria dos eleitores rejeitou a continuidade do projeto bolsonarista, expressão da ascensão do fascismo no Brasil e no mundo, e optou por um caminho que abre a possibilidade de fortalecer as instituições democráticas, as políticas públicas, a justiça social e o amor ao próximo.
Territórios da virada: a distribuição regional dos votos
A consagração da luta contra o fascimo nas urnas foi impulsionada por uma ampla mobilização popular que garantiu a vitoria de Lula em 13 unidades da federação e a liderança em 2.875 municípios, enquanto seu adversário venceu em 2.695 cidades.
No Nordeste, Lula manteve uma liderança expressiva nos nove estados da região, alcançando 69,3% dos votos válidos (cerca de 24,5 milhões de votos) contra 30,7% (10,8 milhões de votos) de Flávio Bolsonaro. O estado do Piauí registrou a maior proporção a favor de Lula, com 75,88% dos votos válidos (1.653.989 votos), enquanto a Bahia respondeu pela maior vantagem absoluta na região, somando 6.485.258 votos (71,31%). Vitória semelhante ocorreu no Maranhão, em Pernambuco e no Ceará, onde o presidente obteve 69,54%, 69,20% e 68,93% dos votos válidos, respectivamente.
O mapa partidário das eleições para o governo estadual nos estados do Nordeste resultou em vitórias distribuídas entre diferentes legendas da base de apoio ao governo e da oposição: o PT garantiu quatro estados com as eleições de Rafael Fonteles no Piauí, Jerônimo Rodrigues na Bahia, Cadu de Lula no enquanto Rio Grande do Nortee e Elmano de Freitas no Ceará; o PSD conquistou três governos, com Eduardo Braide no Maranhão, Raquel Lyra em Pernambuco e Fábio Mitidieri em Sergipe; o PP elegeu Lucas Ribeiro na Paraíba; o PSDB ganhou em Alagoas com João Henrique Caldas.
Na Região Norte, onde obteve 50,1% dos votos válidos, a preferência do eleitorado concentrou-se nos maiores colégios eleitorais regionais, assegurando vitorias no Pará (55,02%), no Amazonas (54,02%) e no Amapá (52,88%).
Nas capitais e nos grandes centros urbanos do Sudeste, Lula também demonstrou grande capacidade de mobilização. Na cidade de São Paulo, maior metrópole da América Latina, Lula venceu com 55,5% dos votos válidos. O candidato adversário venceu no conjunto do estado de São Paulo com 53,85% dos votos (contra 46,15% de Lula), em 573 dos 645 municípios paulistas. Já no estado de Minas Gerais, considerado um importante indicador político nacional, Lula garantiu a vitória com 50,43% dos votos válidos (6.351.099 votos).
Quantos votos foram registrados entre 17h e 19h?
Um dos episódios mais controversos do segundo turno foi a decisão de estender o horário de votação até as 19h. A medida ocorreu quando parte das seções eleitorais já havia encerrado os trabalhos e provocou uma interrupção temporária na totalização e na divulgação dos resultados.
As duas campanhas solicitaram ao TSE ampliação do horário, mas apresentaram pedidos com alcances distintos. Às 13h22, a campanha de Lula protocolou um pedido de extensão da votação, apontando dificuldades de transporte público em municípios da Bahia. Às 15h42, ampliou a solicitação para defender a prorrogação em todo o território nacional. Às 16h22, diante da demora na resposta do TSE, a campanha de Lula acionou formalmente o Supremo Tribunal Federal (STF), reiterando a solicitação de extensão nacional.
Às 15h50, a campanha de Flávio Bolsonaro também apresentou um pedido, citando chuvas, alagamentos, vias interditadas, interrupções no fornecimento de energia e dificuldades de acesso às seções eleitorais. O pedido bolsonarista abrangia municípios de São Paulo, Paraná e Santa Catarina e incluía a solicitação de que a divulgação dos resultados presidenciais aguardasse o encerramento da votação nos locais indicados.
Cristiano Zanin, ministro do STF e ministro substituto do TSE, foi sorteado relator da reclamação e, às 17h03, determinou a ampliação do horário até as 19h, cabendo ao TSE dar cumprimento à decisão.
Diz a decisão de Zanin: “as duas candidaturas que disputam as eleições presidenciais no segundo turno alegaram problemas de transporte de eleitores” e, diante disso, “determino a prorrogação por duas horas, até as 19h (horário de Brasília), do encerramento do recebimento dos votos em todas as seções de todo o Brasil, cabendo ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) dar cumprimento [à ordem].“. A medida não reabriu seções que já haviam encerrado a votação: destinava-se às seções em que os trabalhos ainda não tinham sido concluídos.
Um levantamento divulgado pelo ICL Notícias identificou 34.319 votos computados entre 17h e 19h. Desse total, 32.337 foram registrados entre 17h e 18h e outros 1.982 entre 18h e 19h. O número equivale a aproximadamente 0,78% da diferença final de 4.430.191 votos entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Lula ganhou!
A decisão de ampliar o horário de votação até as 19h, tomada pelo ministro Zanin, foi considerada juridicamente defensável por especialistas em Direito Eleitoral, embora inédita.
O advogado eleitoral Fernando Neisser, presidente da Comissão de Estudos em Direito Político e Eleitoral do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp), afirmou que a medida tinha fundamento jurídico, considerando a obrigação do poder público de assegurar condições para o exercício do voto, inclusive diante de restrições ao transporte público.
O advogado e professor Horácio Neiva, doutor e mestre em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela USP, também avaliou que a decisão não era inconstitucional. A decisão se apoiou em precedente do STF sobre a oferta de transporte público gratuito em dias de eleição, buscando evitar que dificuldades de deslocamento privassem eleitores de votar.
Sem medo do amanhã
No fim, a democracia se fortalece quando a vontade popular é respeitada, as instituições cumprem seu papel e a sociedade não abre mão da liberdade, da justiça e da dignidade humana.
Para quem encontra no Evangelho uma referência de vida, há também uma medida ética para o Brasil que queremos construir: o amor ao próximo, a solidariedade, a defesa dos pobres, o acolhimento dos vulneráveis e o compromisso com a justiça. Esses valores não pertencem exclusivamente a um partido ou candidato, mas exigem coerência entre a fé professada e as escolhas que fazemos em sociedade. Não basta invocar o nome de Deus; é preciso reconhecer sua presença na dignidade de cada pessoa, especialmente de quem mais precisa de proteção e oportunidade.
Que o Brasil transforme a tensão das urnas em diálogo, a polarização em participação cidadã e a esperança em políticas públicas capazes de reduzir desigualdades e ampliar direitos. Porque a democracia só vence de verdade quando a liberdade caminha junto com a justiça social — e quando ninguém é deixado para trás.
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Rogério Bezerra da Silva é Geógrafo, Mestre e Doutor em Política Científica e Tecnológica pela Unicamp. Articulista do Radar Democrático.
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* O Radar Democrático publica artigos de opinião de autores convidados para estimular o debate.




