Ligações suspeitas

Como o dinheiro público, da Prefeitura de SP, pode ter financiado o filme sobre Bolsonaro

Gestão Ricardo Nunes contratou ONG para instalar internet na periferia a um custo muito maior que o de mercado; entidade é presidida pela dona da produtora do filme Dark Horse

Depois da operação da Polícia Civil de São Paulo contra a produtora GoUp, realizadora do filme Dark Horse sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, a pergunta que fica é: como o dinheiro da Prefeitura da capital poderia ter financiado a produção? Esta reportagem vai mostrar o caminho do dinheiro.

Tudo começa com uma manobra que desafia a lógica da eficiência administrativa e prioriza o repasse do dinheiro à produtora. Assim, a gestão de Ricardo Nunes (MDB) transformou o programa WiFi Livre SP em um exemplo de desperdício de recursos públicos e possível favorecimento político. Enquanto 1.800 pontos de internet gratuita simplesmente sumiram do horizonte das comunidades periféricas de São Paulo, o custo do contrato disparou, numa engenharia financeira destinada a fins alheios ao interesse da população.

O Aditivo do Absurdo

A investigação revela que a prefeitura assinou um aditivo de R$ 49 milhões ao contrato com o Instituto Conhecer Brasil (ICB) apenas seis dias após as primeiras denúncias de irregularidades virem à tona na imprensa. Com isso, o montante total destinado à ONG presidida por Karina Ferreira da Gama — também sócia da produtora do filme “Dark Horse” — saltou de R$ 108 milhões para R$ 157 milhões.

O paradoxo é gritante: ao mesmo tempo em que o valor subiu, a meta de entrega foi drasticamente reduzida. Dos 5.000 pontos de Wi-Fi originalmente contratados para levar dignidade digital às favelas, o novo acordo aceitou apenas 3.200 pontos (64% da meta inicial). Como destaca a reportagem da Agência Pública:

“o texto [do aditamento] não apresenta previsão para a entrega do restante da meta à população”.

Sobrepreço e Abandono Periférico

A Polícia Civil aponta que a disparidade de custos é um dos pilares da fraude. Enquanto a Prodam, empresa de tecnologia da própria prefeitura, cobrava R$ 230 para instalar cada ponto, o contrato com o ICB previa o pagamento de R$ 1.800 por unidade.

O delegado Antonio Carlos Munuera Silveira, responsável pelo inquérito, é taxativo ao descrever a irregularidade:

“Correspondendo a uma cobrança pelo menos duas vezes superior aos preços usualmente praticados pela Administração Municipal”.

Para os investigadores, essa “sobra” financeira teria gerado um saldo de R$ 26 milhões pagos por serviços nunca prestados, valor que a polícia suspeita ter sido desviado para o financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro.

Defesas e Contradições Políticas

Acuado pela operação, o prefeito Ricardo Nunes optou pelo ataque, classificando a ação da Polícia Civil — subordinada ao seu aliado Tarcísio de Freitas — como um ato de perseguição. Em tom de desabafo, Nunes declarou:

“Estão indo atrás de um contrato com a prefeitura em 2024 por causa do filme? Aí eu acho grave. (…) Aí é perseguição política”.

O prefeito ainda teceu elogios à investigada, descrevendo Karina Gama como uma “mulher trabalhadora, uma mulher que, como qualquer outra, está batalhando e que conhece o Bolsonaro, né?”.

Do outro lado, o senador Flávio Bolsonaro (PL) tenta desvincular a imagem do pai do escândalo, afirmando categoricamente que a operação “não tem nada a ver com o filme”. No entanto, colunistas políticos já apontam o desgaste dessa narrativa. Josias de Souza, do UOL, observa a ironia do racha na direita paulista:

“Para livrar a própria gestão, [Nunes] coloca a polícia do amigo Tarcísio para brigar com a família do aliado Bolsonaro”.

Já o comentarista Marco Antonio Sabino resume o clima de incerteza: “O horse está ficando cada vez mais dark”.

O “Ecossistema” de Karina Gama — Da literatura gospel à tecnologia digital

A versatilidade do Instituto Conhecer Brasil (ICB) seria motivo de elogios se não estivesse umbilicalmente ligada a uma suspeita gestão de verbas públicas. Sob o comando de Karina Ferreira da Gama, a entidade realizou um salto acrobático: de promotora de feiras de livros e eventos religiosos gospel, transformou-se, da noite para o dia, em uma gigante das telecomunicações e da tecnologia de ponta.

A polícia descobriu um padrão de autofaturamento e favorecimento interno. De acordo com notas fiscais obtidas pela reportagem do Metrópoles, o ICB destinou aproximadamente R$ 445 mil de emendas parlamentares para contratar empresas pertencentes a um de seus próprios conselheiros.

Eduardo Ferreira Franco, nomeado conselheiro técnico-científico do instituto com mandato até 2032, é sócio das empresas HCG Projetos (HCamargo) e Vamoz Comunicação. Durante o evento “Rumos da Inovação na Educação do Futuro Agora” (Riefa), realizado com dinheiro público, Franco atuou nas duas pontas: como dirigente da ONG contratante e como dono das empresas fornecedoras de cenografia, locação de equipamentos e conteúdo para o metaverso.

Como define categoricamente o portal Metrópoles:

“A ONG da produtora do filme Dark Horse contratou a empresa de um conselheiro da própria entidade como fornecedora para quase 60% dos gastos”.

O salto para o desconhecido (e lucrativo)

A investigação da Polícia Civil reforça que a escolha do ICB para o contrato de R$ 157 milhões do Wi-Fi Livre SP ignorou a falta de expertise técnica da entidade. O edital da prefeitura, segundo o delegado Antônio Carlos Munuera Silveira, utilizou:

“critérios genéricos para a escolha de uma organização social sem experiência prévia no setor de telecomunicações”.

Essa ausência de histórico não impediu que o ICB se tornasse o destino preferencial de emendas de parlamentares do PL de Bolsonaro e do Republicanos de Tarcísio. Somente para o evento Riefa, foram destinados R$ 2 milhões entre 2023 e 2025. Entre os financiadores, destaca-se o deputado federal Mario Frias (PL-SP), roteirista e ator de “Dark Horse”, que destinou outros R$ 2 milhões ao ICB para projetos de “letramento digital” e esporte — repasse que agora é alvo de apuração no Supremo Tribunal Federal (STF) por suposto desvio de finalidade.

Metaverso para Ninguém

Enquanto o serviço de internet física nas comunidades sofria cortes de metas, o “ecossistema” de Karina Gama investia pesadamente em fumaça tecnológica. O ICB gastou R$ 181,5 mil em conteúdos para o metaverso e R$ 148 mil em produção de vídeos para o evento Riefa.

O resultado social desse investimento, no entanto, foi nulo: as transmissões ao vivo, custeadas pelo erário, não alcançaram sequer 2 mil visualizações no YouTube. A tecnologia não serviu para incluir o cidadão, mas para justificar o escoamento de verba pública para empresas do círculo íntimo da gestão Nunes.

O “espelho” na Flórida — o risco da evasão e o dinheiro sem volta

A investigação da Polícia Civil de São Paulo, batizada de “Operação Wi-Fi”, não se detém apenas nos endereços da capital paulista. O radar dos investigadores aponta agora para o hemisfério norte, especificamente para a Flórida, nos Estados Unidos, onde uma estrutura empresarial “espelho” pode ter servido como porto seguro para verbas desviadas do erário municipal.

A polícia identificou que a investigada Karina Ferreira da Gama possui conexões comerciais no exterior, incluindo uma empresa registrada em solo americano com o exato mesmo nome de sua produtora brasileira: a Go Up Entertainment. Para o delegado Antônio Carlos Munuera Silveira, titular da 2ª DICCA, essa estrutura não é mera coincidência, mas um alerta vermelho para o crime de evasão de divisas.

Em petição enviada à Justiça para solicitar a quebra de sigilo e a intervenção do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), o delegado foi enfático ao descrever o perigo de que o dinheiro público paulistano nunca seja recuperado:

“A investigada Karina Ferreira da Gama possui conexões comerciais no exterior, incluindo empresa registrada na Flórida (EUA) com o mesmo nome da produtora cinematográfica brasileira, indicando elevado risco de evasão de divisas e ocultação patrimonial definitiva”.

“Dark Horse”: projeto de Hollywood com dinheiro da periferia?

A tese dos investigadores, reforçada por reportagens do UOL e da BBC News Brasil, é que o filme “Dark Horse” foi concebido para ser um produto de exportação, o que justificaria a necessidade de contas internacionais. A obra, uma cinebiografia de Jair Bolsonaro, foi gravada integralmente em inglês, conta com direção e elenco de Hollywood e tem um custo estimado que varia entre R$ 8 milhões e R$ 20 milhões.

A polícia suspeita que os R$ 26 milhões pagos pela prefeitura sem a devida prestação de serviço tenham sido “pulverizados” por meio de empresas subcontratadas antes de serem enviados para o exterior. O objetivo dessa triangulação seria “lavar” o dinheiro para custear a produção internacional.

Para descortinar esse esquema, a Justiça autorizou o uso de Relatórios de Inteligência Financeira (RIF) do Coaf. A urgência da medida justifica-se pela possibilidade de os investigados transferirem os valores para as “empresas de fachada” no exterior a qualquer momento. Como afirma o delegado, o rastreamento é “o único meio capaz de descortinar a destinação final das verbas recebidas pelo Instituto Conhecer Brasil — ICB e repassadas de forma suspeita”.

O analista Josias de Souza, em sua coluna, ironiza a postura da gestão Nunes ao tentar blindar o aliado e sua família da investigação policial: “Para livrar a própria gestão, coloca a polícia do amigo Tarcísio para brigar com a família do aliado Bolsonaro”.

O balcão de negócios com presença de Ciro Nogueira

Por trás da fachada tecnológica do programa WiFi Livre SP, escondem-se as digitais de um dos maiores articuladores do chamado “Centrão”. A investigação revela que o contrato milionário com o Instituto Conhecer Brasil (ICB) não foi fruto de uma escolha técnica isolada, mas sim o subproduto de um loteamento político estratégico.

O termo de colaboração de R$ 108 milhões (que depois chegaria a R$ 157 milhões) foi assinado sob a gestão de Bruno Lima, então secretário de Inovação e Tecnologia. Como aponta a reportagem da Folha de S.Paulo, Lima — um delegado de carreira que se licenciou do cargo de deputado federal — assumiu a pasta municipal em fevereiro de 2023 como parte de um acordo direto entre Ricardo Nunes e Ciro Nogueira, presidente nacional do Progressistas (PP).

O objetivo da indicação era garantir o apoio do PP à campanha de Nunes à reeleição em 2024. Foi justamente sob esta batuta política que o edital para a instalação de Wi-Fi em comunidades periféricas foi desenhado e o contrato com a ONG de Karina Gama, firmado em junho de 2024. Lima, que deixou o cargo pouco depois da assinatura, tenta se distanciar da polêmica: “Nunca a vi e, se passar em minha frente, não sei quem é”, afirmou ao ser questionado sobre sua relação com a dona da ONG.

Irregularidades e direcionamento

O edital parece ter sido moldado para contornar a falta de expertise técnica da entidade vencedora. O Tribunal de Contas do Município (TCM) já havia alertado para 20 irregularidades antes mesmo da formalização da parceria, incluindo a ausência de estudos técnicos preliminares.

O resultado foi um certame sem concorrência, onde o ICB, cujas atividades anteriores eram restritas a feiras de livros e eventos religiosos, foi a única entidade a apresentar proposta.

A prefeitura abriu mão da eficiência da Prodam (que cobrava R$ 230 por ponto) para validar um contrato de R$ 1.800 por ponto com uma entidade parceira do sistema político vigente.

O labirinto das notas frias e subcontratadas

A Polícia Civil e o Ministério Público classificam o contrato com o ICB como uma “maquiagem contábil” agressiva: o uso de documentos inválidos para simular a execução de um serviço que nunca chegou plenamente à população das periferias.

Um dos pontos mais alarmantes da investigação, detalhado pelo G1 e pelo Brasil de Fato, é o uso de R$ 4 milhões em notas fiscais canceladas para justificar gastos perante a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT).

O esquema funcionava de forma simples: o ICB apresentava notas de prestação de serviços que eram invalidadas no sistema municipal logo após a emissão. Em um caso emblemático, uma nota de R$ 2 milhões emitida por uma empresa parceira foi cancelada no mesmo dia, mas permaneceu na prestação de contas oficial meses depois. A investigação aponta ainda que a ONG emitiu três notas contra si mesma, totalizando R$ 1,4 milhão, uma prática vedada pela legislação.

O rastro do dinheiro público também passa por um labirinto de subcontratações que somam R$ 98 milhões. A empresa Make One Tecnologia Digital, que recebeu R$ 36 milhões do ICB, é alvo central por inconsistências em suas faturas.

Segundo o portal R7, a polícia identificou quatro faturas sequenciais da Make One, totalizando R$ 8,5 milhões, emitidas na mesma data e com o mesmo vencimento, porém sem as respectivas notas fiscais ou recolhimento de impostos. Para os investigadores, este fracionamento artificial sugere uma “montagem para justificar saídas ilícitas de recursos financeiros”.

A qualidade das empresas escolhidas pelo ICB para gerir o Wi-Fi paulistano também é alvo de críticas contundentes. A subcontratada Favela Conectada (atual Urban Connect), que assinou um contrato de R$ 12 milhões, tinha como representante Alex Sandro Bispo dos Santos, preso sob acusação de feminicídio. Após a prisão, a empresa foi transferida para uma mulher que declarou residir no mesmo endereço do ex-proprietário.

Além disso, a BBC News Brasil destaca que a empresa Fast Future, subcontratada por R$ 12 milhões, pertence a um casal associado a Karina Gama. A diretora da empresa, Débora Feldman, assinou o contrato milionário de tecnologia, embora se apresente nas redes sociais como terapeuta holística.

O balanço final da investigação é desolador para o erário de São Paulo. A polícia estima que R$ 26 milhões foram pagos sem a contrapartida de serviços prestados. O delegado Antônio Carlos Munuera Silveira resume a necessidade do rigor investigativo:

“O rastreamento do fluxo financeiro é o único meio capaz de descortinar a destinação final das verbas recebidas pelo Instituto Conhecer Brasil — ICB e repassadas de forma suspeita a empresas subcontratadas e às contas pessoais da investigada”.

Enquanto os recursos eram “pulverizados” em empresas de fachada ou com sócios sob investigação criminal, a meta de inclusão digital foi cortada e o preço por ponto de internet permaneceu inflado. Como bem pontuou o colunista Marco Antonio Sabino: “O horse está ficando cada vez mais dark… O cheiro é ruim”.

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