O Ministério Público de São Paulo (MP-SP), por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), deflagrou a Operação Janus, que investiga suspeitos de financiar o Primeiro Comando da Capital (PCC). A operação revelou indícios de que operadores financeiros ligados à facção mantinham relações de proximidade e amizade com coronéis da Polícia Militar de São Paulo. Entre os citados estão os coronéis Luiz Carlos Pereira Martins, José Augusto Coutinho – ex-comandante-geral da PM e da Rota –, e um oficial identificado apenas como “Patrício”. Os investigados não são alvos diretos da operação, mas suas citações levantam questões sobre a influência do PCC dentro das estruturas de segurança.
As investigações apontam que empresários como Cléber Azevedo dos Santos e Robson Martins de Souza, envolvidos na lavagem de dinheiro para o PCC, mantinham uma “relação de amizade” com o coronel Pereira Martins. Essa proximidade, segundo o MP, teria permanecido mesmo após Cléber Azevedo se tornar alvo de outras operações policiais. Um dos elementos que sustentam essa afirmação é a participação de ambos em um grupo de WhatsApp chamado “Aniversário general”, ativo até novembro de 2023, onde mensagens de caráter pessoal e social eram compartilhadas. Registros indicam ainda que Pereira Martins se dispôs a auxiliar os investigados e intermediar contatos com autoridades.
Pagamentos em Espécie e “Ticketagem”
Outro ponto destacado pela investigação é a menção de pagamentos em dinheiro vivo para o coronel “Patrício”. Uma planilha apreendida indicou um pagamento de R$ 1.000,00 direcionado a ele, proveniente da prática conhecida como “ticketagem”. Este esquema, descoberto em operações anteriores, envolve o pagamento de propina em espécie, disfarçado como compra de vales-refeição ou favores a policiais, para financiar as atividades do PCC e custear vantagens institucionais.
As apurações do Gaeco, desdobramento das operações Bazaar, Recidere e Salus et Dignitas, baseiam-se em registros de áudio e planilhas financeiras. Nestes documentos, nomes de operadores financeiros e de coronéis da PM de São Paulo aparecem em contextos que sugerem uma aproximação para garantir “trânsito livre, blindagem e apoios estratégicos” à facção. Um diálogo interceptado revela que o empresário Cléber Azevedo solicitou informações financeiras para “pagar a polícia”. O coronel José Augusto Coutinho, ex-comandante-geral da PM e da Rota, também é citado em diálogos e planilhas, indicando uma possível ligação com o operador financeiro Amjad Ahmad.
“Tribunais do Crime” e Movimentação de Recursos
A Operação Janus visa aprofundar a apuração sobre a movimentação de recursos ilícitos do PCC, que envolvem entregas de dinheiro em espécie, transferências bancárias e o uso de empresas de fachada. Além disso, os investigados teriam participado de reuniões para resolver disputas patrimoniais dentro da facção, episódios conhecidos como “tribunais do crime”. A Justiça determinou o bloqueio de contas, imóveis e veículos dos investigados, com ativos financeiros chegando a R$ 10 milhões por alvo.
O coronel José Augusto Coutinho já havia sido citado em uma investigação anterior da Corregedoria da Polícia Militar referente à escolta de policiais a uma empresa de ônibus ligada ao PCC, o que levou à sua saída do cargo de comandante-geral. A Polícia Militar do Estado de São Paulo reiterou seu compromisso com o enfrentamento ao crime organizado e a cooperação com o Ministério Público e o Poder Judiciário. A corporação afirma que participou da deflagração da Operação Janus.



