Eleições Estaduais

O palanque invertido: como Lula virou a tábua de salvação de Haddad em São Paulo

Pesquisa Quaest revela inversão de papéis: o presidente precisa impulsionar o candidato petista, que sofre com alta rejeição e antipetismo.

A mais recente pesquisa Quaest expõe uma inversão que desmonta a estratégia original do PT para São Paulo. O plano era simples: lançar Fernando Haddad ao governo do estado para construir um palanque forte e competitivo para Lula no maior colégio eleitoral do país. Os números, no entanto, mostram o oposto — é Haddad quem precisa se apoiar em Lula para permanecer politicamente viável.

O sinal dessa inversão aparece no desempenho eleitoral direto dos dois segundo a pesquisa Quaest contratada pela Rede Globo neste mês. Enquanto Haddad segue estacionado em 27% das intenções de voto no cenário estimulado, contra 40% de Tarcísio de Freitas, Lula mostra um desempenho mais sólido no estado: no cenário presidencial, o presidente marca 29% (30% no cenário com Pablo Marçal) e empata tecnicamente com o senador Flávio Bolsonaro.

Na prática, Lula tem individualmente mais votos em São Paulo do que o próprio candidato que deveria lhe garantir sustentação estadual. Enquanto o ex-ministro da Fazenda corre o risco de ver a disputa decidida ainda no primeiro turno, o presidente consegue reverter cenários desfavoráveis e disputar votos diretamente com o bolsonarismo.

Veja os números da pesquisa:

  • Tarcísio de Freitas (Republicanos): 40%
  • Fernando Haddad (PT): 27%
  • Policial Edjane (Agir): 2%
  • Vera Lúcia (PSTU): 1%
  • Carlos Machado (PCB): 1%
  • Izadora Dias (PCO): 1%
  • Vivian Mendes (UP): 1%
  • Branco/nulo/não vai votar: 14%
  • Indecisos: 13%

Números da pesquisa espontânea

  • Tarcísio de Freitas (Republicanos): 21%
  • Fernando Haddad (PT): 9%
  • Outros: 0
  • Branco/nulo/não vai votar: 4%
  • Indecisos: 66%

Para 67% dos eleitores ouvidos no levantamento, a escolha do candidato é definitiva. Outros 33% dizem que ainda podem mudar o voto até as eleições, em 4 de outubro.

Colar em Lula: a única rota de sobrevivência

Uma campanha isolada, centrada apenas em temas locais, esbarraria no teto de rejeição de Haddad. Com 59% de rejeição direta — eleitores que dizem conhecê-lo e afirmam que não votariam nele de jeito nenhum —, o candidato petista tem pouco espaço para crescer entre os 13% de indecisos.
Por isso, associar sua imagem à de Lula não é apenas uma escolha tática, mas a equação matemática capaz de levá-lo a um segundo turno:

  • Ganho imediato: 20% dos paulistas dizem que o apoio de Lula aumenta a chance de votarem em um candidato. Se Haddad conseguir converter esse contingente e somá-lo ao núcleo duro do PT.
  • Transferência de simpatia: Lula tem hoje 37% de aprovação no estado. Se Haddad conseguir colar sua imagem à do presidente a ponto de herdar parte dessa simpatia, pode sair dos atuais 27% rumo aos 35% — o que mudaria por completo a dinâmica do primeiro turno, hoje projetado em 40% a 27% para Tarcísio.

O outro lado da moeda: a armadilha do antipetismo paulista

É aqui que a contradição se aprofunda e a estratégia se torna arriscada. Ao mesmo tempo em que Lula é a tábua de salvação de Haddad, colar demais na imagem do presidente pode selar sua derrota.

Os números de rejeição ao governo federal no estado são expressivos: 58% desaprovam a gestão de Lula em São Paulo, 48% avaliam o governo federal de forma negativa, e para 37% dos eleitores o apoio de Lula a um candidato ao governo estadual diminui — não aumenta — a chance de voto.

O paradoxo é implacável: se Haddad se associar totalmente a Lula, garante o piso de 27% a 30% do eleitorado de esquerda, mas ativa de imediato a rejeição de 37% que reage negativamente ao apoio do presidente — reforçando o muro de 59% de rejeição que o candidato já carrega no estado.

Em resumo: para crescer, Haddad precisa da energia do voto lulista; mas, ao se aproximar demais dessa órbita, também absorve a força do antipetismo paulista, o que dificulta seu diálogo com os 40% de eleitores moderados que desejam apenas ajustar — não romper com — a gestão de Tarcísio de Freitas.

A fragmentação inócua das franjas ideológicas

Abaixo de Haddad, o quadro eleitoral escancara outro problema para o campo progressista. A soma dos candidatos de partidos menores soma apenas 6% das intenções de voto — Policial Edjane (Agir) com 2%, e Carlos Machado (PCB), Izadora Dias (PCO), Vera Lúcia (PSTU) e Vivian Mendes (UP) com 1% cada. Quase todo esse pelotão está posicionado à esquerda do PT, o que significa que esses votos residuais não vêm de Tarcísio — vêm do próprio Haddad.

Do lado conservador, a única concorrente fora dessa órbita é a Policial Edjane, com resultado marginal. Sem uma alternativa moderada de centro-direita na cédula, o eleitorado que rejeita o PT não tem para onde ir a não ser Tarcísio, que absorve por ausência de concorrência praticamente todo o voto conservador e de centro do estado.

Disputa acirrada ao Senado

O contraste com a disputa ao Senado, no mesmo levantamento, ajuda a entender o mecanismo. Ali, com duas vagas em jogo, Guilherme Derrite, Marina Silva e Simone Tebet aparecem empatados em 12%, 12% e 11%, respectivamente, e a indecisão espontânea chega a 91%. A presença de nomes conhecidos de diferentes campos fragmenta a escolha e mantém o eleitorado em aberto. Na corrida ao governo, o efeito é o oposto: a polarização precoce transformou a eleição num referendo direto sobre a gestão Tarcísio, eliminando o espaço de indecisão que existe no Senado.

Esse cenário se reforça por um terceiro dado: o grau de certeza do voto. Em São Paulo, 67% dos eleitores dizem que sua escolha para governador já está definida, contra 33% que ainda admitem mudar. Com Tarcísio na casa dos 40% e a maior parte do eleitorado já cristalizada, a margem matemática para uma reviravolta de Haddad é estreita.

Mesmo somando os 13% de indecisos aos eleitores que dizem poder mudar de voto, o cenário não favorece automaticamente a oposição: a aprovação ao governo Tarcísio está em 56%, e apenas 34% dos paulistas dizem querer uma mudança total de rumo. Isso sugere que boa parte do eleitorado ainda em aberto tende a migrar para a continuidade moderada, não para a mudança proposta pelo PT — o que, na ausência de uma terceira via consistente, deixa o favoritismo de Tarcísio para decidir a eleição em outubro com respaldo estatístico sólido.

A pesquisa Quaest contratada pela Globo ouviu 1.800 pessoas de 16 anos ou mais entre os dias 21 e 24 de agosto. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. O número de registro no TSE é SP-06946/2026.

Fonte:
Quaest

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