Por Cidinha Santos
Há partidas que não cabem no silêncio. Quando Amelinha Teles fez a travessia para o plano espiritual, a reitoria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) não se vestiu apenas com a solenidade do luto, mas com o colorido vivo de centenas de coroas e arranjos florais. Aquele mar de pétalas não era mera formalidade; era a tradução exata, em cores e perfumes, do tamanho de uma mulher que dedicou cada fôlego de sua existência à justiça, à liberdade, aos direitos humanos e, principalmente o das mulheres.
Em tempos tão áridos e difíceis para a nossa sociedade, a despedida de Amelinha transformou-se em um poderoso ato político e afetivo. Aquela infinidade de flores enviadas por movimentos sociais, a presença marcante das Promotoras Legais Populares e das membras da União de Mulheres de São Paulo, companheiras de luta, acadêmicas e cidadãs comuns funcionou como um termômetro da alma coletiva: mostrava, sem margem para dúvidas, o quanto ela foi e continuará sendo essencial na vida de todas nós. Amelinha era o abraço firme e a voz corajosa que nunca silenciou diante da opressão, sobrevivente da tortura que escolheu transformar a própria dor em semente de emancipação.
Transformando o luto em festa
Entre coroas e abraços estreitados pela saudade, o adeus não se fez com silêncio pesado, mas com a música que ela tanto adorava. A despedida foi embalada pelas canções das Promotoras Legais Populares (PLP) e pela alegria contagiante da música do Bloco Dona Yayá, criado por ela mesma para ocupar as ruas com arte e política. As vozes ecoaram em coro, unidas ao ato inter-religioso, transformando o luto em celebração. Era a certeza de que a alegria e a espiritualidade também são armas revolucionárias, e que a memória de Amelinha cantará para sempre em cada voz militante.
O projeto Promotoras Legais Populares (PLP) está entre os seus maiores legados, uma verdadeira revolução silenciosa que descentralizou o saber jurídico e o entregou nas mãos das mulheres, principalmente aquelas das periferias. Ao ensinar que o direito pertence a quem dele precisa, Amelinha multiplicou-se em milhares de outras “Amelinhas”. Cada Promotora Legal Popular formada é a prova viva de que o conhecimento liberta, e que a justiça social se constrói coletivamente, de baixo para cima.
Agora, Amelinha descansa da lide terrena, mas assume o seu posto definitivo como nova ancestral. Ela passa a habitar o invisível tecido que sustenta a nossa luta diária, guiando os passos das feministas que seguem a marchar. As flores que cobriram sua despedida murcharão, e os acordes se acalmarão, mas a horta comunitária de direitos, dignidade e poesia que ela plantou floresce todos os dias em cada mulher que levantar a voz.
Amelinha não partiu; ela virou canto, raiz e vento.
C
idinha Santos é jornalista, assessora de comunicação do Coletivo Feminista Classista Antirracista Maria vai com as Outras e dos movimentos sociais, Promotora Legal Popular (PLP) e cantante do Grupo Vozes.
* O Radar Democrático publica artigos de opinião de autores convidados para estimular o debate.



