A poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro de 2026, o debate eleitoral mudou de eixo. A disputa, que vinha sendo puxada por pautas ideológicas e pânicos morais, passou a girar em torno das condições materiais de vida de quem trabalha. O divisor de águas foi a aprovação da PEC que acaba com a escala 6×1. Ao assumir a paternidade da medida e levá-la ao centro da campanha, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva inverteu a correlação de forças: pôs a extrema direita na defensiva e devolveu protagonismo à pauta trabalhista na reta final.
Lula fez do projeto uma importante vitrine política, uma conquista histórica para o operariado e o setor de serviços. A PEC reduz a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, de forma gradual, passando antes pelas 42 horas. Garante dois dias de descanso remunerado por semana, com preferência para o domingo. E proíbe qualquer redução salarial.
A vitória no Congresso veio de um alinhamento tático. A líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), apresentou requerimento para dispensar o intervalo regimental entre as votações, o que permitiu votar os dois turnos na mesma quarta-feira, 14 de outubro. A tramitação acelerada cumpriu o compromisso do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), de pautar a matéria antes das eleições.
A PEC foi aprovada por 75 votos a favor e apenas um contrário, do senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), que foi vice-presidente de Jair Bolsonaro (PL). O placar mostrou a impotência da oposição bolsonarista diante de uma proposta que, segundo o Datafolha, tem apoio de 71% da população.
DESTAQUE: PEC 221/2019, O FIM DA ESCALA 6×1
- Redução de jornada: teto semanal de 44 para 40 horas, de forma gradual (primeiro 42 horas, depois 40).
- Descanso remunerado: dois dias por semana garantidos pela Constituição, com preferência para o domingo.
- Irredutibilidade salarial: proibição de qualquer diminuição de vencimentos ou salários em razão da adequação da jornada.
- Impacto direto: fim do modelo de seis dias seguidos de trabalho para um de folga, com benefício a milhões de trabalhadores urbanos, do comércio e do setor de serviços.
A aprovação abalou a coesão do PL e abriu uma crise nos bastidores da campanha de oposição.
Crise no PL: o “pau comeu” sob ordem de Jair
A votação expôs uma fratura na bancada bolsonarista. Divididos entre a defesa dos interesses patronais e empresariais e o temor de uma punição nas urnas, os parlamentares da extrema direita viram a pregação tradicional de flexibilização dos direitos sociais colidir com a realidade eleitoral. A necessidade de agradar ao capital e, ao mesmo tempo, conquistar o voto da massa trabalhadora levou o partido a um conflito aberto.
Na reunião da bancada do PL no Senado, na semana anterior à votação, “o pau comeu”, segundo relatos de integrantes da própria legenda. O clima de rebelião só foi contido pela intervenção do ex-presidente Jair Bolsonaro. Mesmo em prisão domiciliar, por condenação decorrente da tentativa de golpe de Estado, ele mandou a bancada votar a favor da proposta do governo, para conter a perda de votos e proteger a candidatura do filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
A principal resistência veio do coordenador da campanha de Flávio, o senador Rogério Marinho (PL-RN). Defensor dos interesses empresariais e articulador da reforma trabalhista do governo Temer, Marinho sustentou até o último momento que o partido deveria votar contra o texto, em alinhamento com a classe patronal. Foi vencido por Jair Bolsonaro, que argumentou que o voto contrário seria “prejudicial à candidatura presidencial do PL”.
Derrotado no debate interno, Marinho protestou em silêncio: recusou-se a registrar presença no plenário e foi um dos cinco ausentes da sessão. Flávio, por sua vez, fez uma manobra de fachada. Depois de semanas criticando o texto e defendendo a negociação individual entre patrão e empregado, visitou o pai, anunciou a mudança de posição e votou a favor da PEC de forma remota, sem dizer uma palavra em público sobre a medida.
| Nos bastidores | O que apareceu em público |
|---|---|
| Defesa da agenda patronal: oposição histórica ao fim da escala 6×1 e defesa do modelo flexível, com remuneração por hora trabalhada. | Voto favorável remoto: Flávio vota a favor da PEC no sistema do Senado, longe do plenário e sem alarde. |
| Resistência de Marinho: o coordenador da campanha defendeu o voto contrário, para manter o alinhamento com os empresários. | Ordem de Jair: Bolsonaro, em prisão domiciliar, impõe o voto favorável para conter a perda de votos. |
| Rejeição conceitual: integrantes da campanha, como Daniela Marques, chamaram a pauta de “populista e inócua”. | Adesão de última hora: o recuo veio depois da constatação de que rejeitar a PEC seria impopular entre 71% dos eleitores. |
| Boicote ao plenário: parlamentares se recusam a defender abertamente a pauta social do governo. | Ausência dupla: Marinho não registra presença; Flávio evita o debate presencial e não menciona a medida a seus eleitores. |
Cumprida a ordem de votação à distância, Flávio deixou Brasília e foi ao Rio Grande do Sul, em busca de agendas externas e de distrações midiáticas.
Funk no palanque e a segurança pública como cortina de fumaça
O comportamento de Flávio durante a votação mostrou uma campanha na defensiva. Em vez de permanecer no plenário do Senado enquanto se deliberava a mais importante pauta trabalhista das últimas décadas, o candidato do PL foi a Porto Alegre para um ato eleitoral, numa tentativa de desviar a atenção da opinião pública.
O contraste foi simbólico. Enquanto o Senado aprovava duas folgas semanais para a classe trabalhadora, Flávio estava num palanque no bairro Sarandi, na periferia da capital gaúcha, saltando e dançando ao som de jingles de campanha em ritmo de funk. O ato teve público modesto, apesar da presença de seus principais aliados: o senador e governador eleito Sergio Moro (Paraná), o governador eleito Luciano Zucco (Rio Grande do Sul), o governador Jorginho Mello (Santa Catarina) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
No discurso, Flávio não disse uma palavra sobre a escala 6×1. O silêncio buscou evitar desgaste com a base de financiadores empresariais. Para preencher o vazio e tentar emparedar o PT com uma cortina de fumaça, a bancada do PL apresentou uma emenda à PEC 18/25, a PEC da Segurança Pública, de autoria do Executivo federal. A articulação foi de Marinho, e Flávio a vocalizou no palanque. A emenda reduz a maioridade penal para 16 anos como regra geral e fixa em 14 anos o limite para crimes de maior reprovabilidade, como crimes hediondos, tortura, tráfico de drogas, terrorismo e participação em organização criminosa.
A manobra é mais que fuga da pauta: é o recurso clássico da extrema direita ao pânico moral. Pressionada por demandas econômicas e materiais da classe trabalhadora, a oposição aciona o punitivismo penal para tirar o debate público do terreno dos direitos sociais e levá-lo ao terreno do medo.
Por trás do voto favorável de fachada e do punitivismo, há, segundo o texto, um plano do bolsonarismo para desmontar os direitos recém-conquistados caso chegue ao Executivo em 2027.
O voto de fachada e o plano do PL para 2027
A conversão de última hora da extrema direita ao fim da escala 6×1 é um jogo duplo eleitoral. A adesão funciona como anestésico para conter a perda de votos na reta final, enquanto o comando da campanha do PL já costura, com setores da elite empresarial, a revogação velada ou a neutralização das garantias trabalhistas a partir da composição do Congresso em 2027.
O apoio do candidato destoa da própria equipe econômica. Daniela Marques, responsável pelo programa econômico de Flávio, chamou publicamente o debate sobre a redução da jornada de “populista e inócua”. Em encontros reservados com grandes empresários e investidores, o próprio Flávio tranquilizou o setor ao sinalizar propostas de arrocho para um eventual mandato: aumentar a idade mínima de aposentadoria para 67 anos e rever de forma restritiva os critérios do Bolsa Família.
Paralelamente, o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), já admitiu a estratégia para depois da eleição: aprovar a PEC do “pagamento por hora trabalhada”. Para isso, o grupo mantém no Congresso a PEC 12/2026, de autoria do próprio Marinho, e a PEC 40/2025, do deputado Mauricio Marcon (PL-RS).
O impacto desse mecanismo precisa ser dito sem rodeios. Ao vincular a remuneração estritamente às horas contratadas e permitir negociações individuais sem mediação sindical, o projeto do PL esvazia o Descanso Semanal Remunerado (DSR), extingue na prática o direito a férias pagas e ao décimo terceiro proporcional e converte a redução da jornada em corte salarial estrutural. Vendido como “flexibilidade e liberdade de escolha”, o modelo resulta em precarização semelhante à do trabalho informal e uberizado.
“A campanha do Flávio Bolsonaro subiu nas tamancas e acredita que já está eleito. E eles acreditam que, sendo eleito, eles poderão, com a maioria que conseguiram construir tanto na Câmara quanto no Senado, revogar qualquer decisão que seja aprovada agora.” — Erika Hilton (PSOL-SP), deputada federal e defensora da PEC no Congresso.
Essa ameaça de retrocesso passou a pesar na dinâmica das pesquisas e reforçou a tendência de virada a favor do governo na contagem regressiva para as urnas.
Balanço eleitoral: trackings, pesquisas e a tendência da reta final
Os levantamentos quantitativos e as sondagens de bastidor registraram o impacto das pautas sociais. A ofensiva do governo Lula no terreno da economia real estancou o ímpeto da extrema direita e gerou um quadro de pânico nos comitês do PL, que viram escapar a vantagem construída no primeiro turno.
A pesquisa mais recente do Instituto Palver, realizada de 10 a 13 de outubro e registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o protocolo BR-08028/2026, mostra polarização extrema e trajetória de alta do presidente:
- Flávio Bolsonaro (PL): 50%
- Luiz Inácio Lula da Silva (PT): 49%
- Branco / nulo / não vai votar: 1%
- Indecisos: 0%
A Palver fez 5.000 entrevistas, com 1.783 respondentes efetivos, e tem margem de erro de 2,3 pontos percentuais, com 95% de confiança. Embora indique empate técnico, o levantamento mostra uma curva ascendente contínua de Lula. A pressão sobre a campanha de Flávio fica mais evidente nos trackings internos: essas pesquisas diárias, de consumo interno, já indicam virada numérica a favor do presidente.
A reação do eleitorado é alavancada por um pacote de medidas econômicas. Além do perdão de dívidas dos Microempreendedores Individuais (MEI) e da aprovação do fim da escala 6×1, a Câmara dos Deputados aprovou a elevação do teto de faturamento do MEI para R$ 140 mil ao ano.
Esse avanço tem endereço decisivo: o estado de São Paulo. A combinação do fim da escala 6×1 com o fortalecimento dos MEIs atingiu os grandes cinturões industriais e de serviços paulistas, da Grande São Paulo e do ABCD aos polos do interior, como Campinas, Ribeirão Preto, Vale do Paraíba e Sorocaba. Ao desonerar o pequeno empreendedor e garantir tempo livre remunerado ao trabalhador do comércio e dos serviços, o governo federal minou a narrativa neoliberal de Tarcísio de Freitas e Flávio Bolsonaro e passou a corroer a base do bolsonarismo no maior colégio eleitoral do país.
A disputa pelo Planalto chega à hora decisiva com uma lição política clara: quando o debate nacional deixa a manipulação ideológica e passa à vida real e às condições de trabalho do povo, a extrema direita fica sem resposta para as aspirações da maioria trabalhadora.



