Enquanto a família Santini, proprietária do Grupo Tribuna, desfruta de uma vultosa renúncia fiscal que ultrapassa os R$ 154,8 milhões, a realidade nas redações de Santos e região é marcada por precarização, adoecimento e uma perseguição implacável à organização sindical. O caso da Tribuna revela como políticas de desoneração, vendidas sob o pretexto da “eficiência” e geração de empregos, tornaram-se ferramentas de lucro sobre o bem-estar das pessoas, sem qualquer contrapartida social real. O tema foi pauta de um dossiê elaborado pelo Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, fonte de informações desta reportagem.
Desde 2015, o Grupo Tribuna tem sido beneficiado pela Lei 12.546/2011, que permite a substituição da contribuição previdenciária patronal (20% sobre a folha) por apenas 1,5% sobre o faturamento bruto para empresas de radiodifusão. O impacto na Previdência Social é devastador: apenas a TV Tribuna deixou de recolher mais de R$ 153,6 milhões ao INSS em dez anos.
Embora o Ministério da Fazenda e órgãos técnicos como a ANFIP alertem que esse benefício deveria fomentar o emprego, o Grupo Tribuna utilizou o alívio no caixa para promover o “enxugamento” das redações e a substituição de jornalistas experientes por profissionais com salários rebaixados, valendo-se das brechas da Reforma Trabalhista.
O Custo Humano: Burnout e Negligência
O lado humano dessa política neoliberal é alarmante. Durante a pandemia de Covid-19, o grupo demonstrou negligência ao demorar para implementar o trabalho remoto e suspender vales-refeição de quem estava em home office, medida revertida apenas após intervenção do Ministério Público do Trabalho (MPT).
A pressão por “cliques” e a sobrecarga resultante das demissões em massa transformaram o ambiente de trabalho em um cenário de tortura psicológica. Relatos colhidos pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP) descrevem profissionais em prantos, crises de pânico e diagnósticos de burnout. Estagiários também são alvos de exploração, sendo obrigados a cumprir jornadas de 8 horas em fins de semana sem o devido respaldo legal.
A cruzada antissindical e alianças políticas
Para manter esse sistema de exploração, o Grupo Tribuna adota uma postura de guerra contra o sindicato. Em 15 anos, cinco diretores do SJSP foram demitidos, uma afronta direta à liberdade de organização garantida pela Constituição.
Os casos recentes de Sandro Thadeu e Ernandes Caires evidenciam o viés autoritário da empresa. Caires, editor com 35 anos de casa, foi demitido em 2025 após sofrer uma crise de burnout e manifestar opiniões políticas divergentes da deputada federal Rosana Valle (PL-SP), aliada da família Santini.
O marketing do Grupo Tribuna tenta vender uma imagem de governança e responsabilidade social (ESG), mas os dados e os depoimentos revelam o oposto: uma política perversa que utiliza subsídios públicos para financiar a perseguição política e o desmonte de direitos. No interior de São Paulo, o caso Tribuna é o exemplo acabado de como o capital ignora a função social da empresa em favor do enriquecimento de poucas famílias, à custa da saúde e da dignidade de quem produz a notícia.



