Moradores do Jardim Arpoador, na zona oeste de São Paulo, denunciaram na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) a convivência há cerca de 50 anos com solo e lençol freático contaminados. O problema, atribuído à multinacional holandesa Akzo Nobel, fabricante de tintas e revestimentos, foi tema de uma audiência pública realizada nesta terça-feira (28), que buscou debater e encontrar soluções definitivas para a situação.
A instalação da fábrica da Akzo Nobel no local em 1974 teria deixado para trás resíduos tóxicos que impactam a saúde e o bem-estar da comunidade há décadas. O deputado estadual Maurici (PT) destacou a gravidade do caso, ressaltando como a demora na resolução prolonga o sofrimento das famílias. Ele enfatizou que crimes ambientais como este frequentemente se caracterizam pela lentidão, falta de transparência e dificuldade em responsabilizar os culpados, tornando a audiência um espaço crucial para organização do debate, visibilidade do problema e cobrança por respostas concretas.
Evidências e Impactos na Saúde
Relatórios técnicos da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) confirmaram a contaminação histórica do solo e do lençol freático na região. A contaminação, originada pelas atividades industriais da Akzo Nobel na década de 1970, inclui a presença de solventes aromáticos e metais pesados como mercúrio, alumínio, agrotóxicos, chumbo e cádmio. Pelo menos 40 residências no entorno da fábrica foram afetadas.
André Oliveira, gerente de áreas contaminadas da Cetesb, explicou que o órgão monitora a região desde 2002 e já emitiu mais de 20 manifestações técnicas, totalizando 115 exigências à empresa. Ele mencionou que a Akzo Nobel identificou a contaminação em 1994, mas só comunicou a Cetesb em 2001. A contaminação pode ocorrer pela água ou por vapores, e a remoção de moradores é considerada a medida mais eficaz para o controle de risco.
Moradores relataram os impactos diretos na vida cotidiana. Marlei da Silva Galvão, residente há 55 anos, descreveu o forte cheiro de tinta que, na juventude, causava lacrimejamento e impedia o consumo da água local, que precisava ser fervida. Ela questionou a relação entre as doenças que acometem sua família, como câncer ósseo e AVCs, e a contaminação, afirmando que muitos parentes que cresceram no local também desenvolveram câncer e alguns faleceram. “Nós estamos aqui por justiça”, declarou.
Everaldo Martins, aposentado, também testemunhou perdas familiares e problemas de saúde, incluindo o falecimento de sua mãe por câncer. Ele contou que, antes de saberem dos riscos, a família bebia água de poço. Ainda hoje, segundo ele, a chuva aflora produtos químicos em diversos pontos e o cheiro forte causa tosse à noite, com a falta de diálogo com a comunidade sendo uma constante.
Posicionamento da Empresa
Francisco Farias, diretor da Akzo Nobel, afirmou que a empresa reconhece as demandas da comunidade e está aberta ao diálogo, garantindo conduzir o processo ambiental de forma séria e estruturada. Miriam Rodrigues, gerente de Saúde e Meio Ambiente da empresa, explicou que a Akzo Nobel identificou a contaminação em 1994 e implementou medidas de correção e remediação desde então. Ela declarou que, em 2020, foram atingidos os níveis máximos admissíveis e que o monitoramento do local é realizado atualmente. A representante assegurou que não há contaminação na região ou no córrego Itararé, buscando tranquilizar os presentes.



