Enquanto o governo Tarcísio de Freitas avança com o desmonte das estruturas de planejamento regional, os moradores das 38 cidades da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) enfrentam um verdadeiro “pedágio” invisível. Durante seminário na Assembleia Legislativa (Alesp), parlamentares e especialistas denunciaram que a falta de uma Autoridade Metropolitana e de um Bilhete Único Unificado condena o trabalhador da periferia a pagar até o dobro para se deslocar, criando uma segregação geográfica movida pelo lucro das concessionárias.
A disparidade tarifária é o símbolo maior da injustiça social no transporte. Enquanto um morador da capital pode cruzar a cidade pagando uma única tarifa, quem vive em cidades vizinhas, como Osasco, é punido pela linha que divide os municípios. O vereador Mateus Oliveira (Mandato Coletivo Juntos/Osasco) expôs a realidade cruel de quem depende do sistema intermunicipal:
“No contexto de Osasco, por exemplo, a gente tem uma tarifa que custa R$ 6,10, não tem passe livre estudantil e só pessoas acima de 65 anos que têm isenção… se ele quiser ir para São Paulo, ele ainda tem que pagar a integração com um trem que custa ali o valor total da tarifa também”.
Oliveira destacou que essa precariedade empurra a população para alternativas arriscadas: “A única opção viável que a pessoa que mora na periferia tem é um meio de transporte [Ubermoto] que muitas vezes sai o mesmo valor da tarifa do ônibus com a diferença de que você espera 10 minutos e não uma hora”. Para o vereador, o modelo atual é insustentável: “A gente não pode continuar com esse sistema de transporte que pune quem vive na periferia porque a pessoa não tá vivendo lá por opção e não tem uma outra opção viável”.
O impacto humano: longas caminhadas e abandono de tratamentos
O deputado Maurici (PT), promotor do evento, reforçou que o transporte deve ser encarado como um direito garantido, o que não ocorre sob a atual gestão estadual. Segundo ele, o custo proibitivo gera consequências físicas e sociais graves para os mais pobres:
“O acesso universal ao transporte é um direito social assegurado pela Constituição Federal desde 2015… para efetivar esse direito e democratizar a mobilidade precisamos integrar o transporte coletivo e implantar a tarifa única como um passo rumo à tarifa zero”.
Maurici denunciou as cicatrizes da desintegração no cotidiano: “Uma das consequências são longas caminhadas involuntárias para evitar a utilização de mais de um modal… outra é o abandono de tratamentos de saúde, atividades de cultura ou lazer devido a custos proibitivos do sistema de mobilidade”.
“Neolocalismo corporativo”: o lucro acima da região
A professora Silvana Zioni (UFABC) trouxe o conceito de “neolocalismo corporativo” para explicar como o Estado abriu mão de gerir o território em favor de interesses privados. Ela criticou a visão limitada que ignora a integração metropolitana:
“O que eu percebo é a predominância dessa visão privatista corporativa onde os interesses dos operadores estão, via de regra, sendo garantidos inclusive na distribuição dos recursos”.
Zioni alertou para a concentração de investimentos em áreas nobres em detrimento das periferias, apontando uma “estratégia territorialista como, por exemplo, a concentração das linhas de metrô e de ferrovia que estão concedidas no quadrante sudoeste da região metropolitana”.
O Exemplo que Vem de Recife: Integração é Possível
Para provar que o caos em São Paulo é uma escolha política e não uma fatalidade técnica, o professor Maurício Pina, do Consórcio de Recife, apresentou o modelo que permite a circulação por 14 municípios com uma só passagem. Ele detalhou o sucesso do sistema estrutural integrado:
“Qualquer pessoa pode se deslocar de qualquer ponto para qualquer região da região metropolitana do Recife através de um sistema articulado integrado pagando apenas uma tarifa”.
Pina ressaltou que a participação menor da capital na população total (40%) em Recife, comparada aos 56% de São Paulo, confere um “grau muito metropolitano às decisões que são tomadas no âmbito do transporte”.



