O cenário de caos visto nas estações Brás e Tatuapé nesta quinta-feira (23), com trem incendiado e passageiros em fuga pelos trilhos no escuro, gerou um recuo estratégico do governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos). Após apenas três dias sob gestão da concessionária Trivia Trens, as linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade retornarão ao controle da CPTM por 90 dias.
Para o vereador Nabil Bonduki (PT), a medida não passa de uma artimanha política. Em denúncia contundente, Bonduki classificou o governador como “cara de pau”, afirmando que ele “empurra a crise administrativa com a barriga para não sofrer mais desgastes antes da eleição”. Segundo ele, o objetivo de Tarcísio é atravessar o período eleitoral sem o ônus político de uma concessão desastrosa. O vereador considera que a decisão não é técnica, mas puramente eleitoreira. Ele destaca que a concessionária Trivia Trens teve um ano e três meses de transição para se preparar; logo, um adiamento de 90 dias não resolverá a evidente falta de competência técnica da empresa.
Tragédia anunciada e falha nos dispositivos de vida
O saldo do terceiro dia de gestão privada foi dramático. Na manhã de quinta-feira (23), uma explosão seguida de incêndio entre as estações Brás e Tatuapé obrigou passageiros a caminharem pelos trilhos no escuro. O deputado estadual Donato (PT) afirmou que a cidade esteve “à beira de uma tragédia”, com pessoas correndo risco de morrer queimadas ou sufocadas pela fumaça.
A gravidade do episódio expôs falhas de segurança inaceitáveis: os botões de emergência dos trens não funcionaram. O diretor de operações da Trivia Trens, Paulo Ferreira, admitiu que o sistema é elétrico e para de operar quando a energia é cortada — justamente o momento em que ele é mais necessário.
Apesar do contrato bilionário de R$ 14,3 bilhões por 25 anos, a Trivia Trens demonstrou despreparo operacional imediato. Nabil publicou em suas redes um áudio de um funcionário demitido da CPTM e que está cumprindo aviso prévio treinando trabalhadores da Trivia: o operador afirma que a concessionária estaria substituindo profissionais qualificados da CPTM por mão de obra mais barata e sem o devido treinamento.
O operador afirma que que novos operadores, sem o “tino” necessário para pilotar as composições, estariam provocando sobrecargas elétricas nas caixas de energia dos trens ao acelerar e frear bruscamente.
O deputado Emídio de Souza sintetizou o absurdo da situação: “Se a CPTM terá que voltar para ensinar a concessionária a operar, por que privatizar?”.
Oposição aciona órgãos de controle
A reação política foi imediata. A deputada Ediane Maria (PSOL) acusou Tarcísio de tentar “jogar para debaixo do tapete” sua responsabilidade política e as prioridades de seu governo, que ignora os riscos impostos à população. Já o deputado Carlos Giannazi (PSOL) informou que o Coletivo Educação em 1º Lugar já acionou o Ministério Público (MP) e o Tribunal de Contas do Estado (TCE) para investigar o que classificou como “privataria e desmonte dos serviços públicos”.
Enquanto a Artesp classifica o ocorrido como “inaceitável” e abre processos administrativos, o histórico de outras linhas privatizadas, como a 8-Diamante e a 9-Esmeralda (ViaMobilidade), serve de alerta: o número de falhas nessas linhas aumentou 600% após a concessão.



