A menos de um mês das eleições de 2026, os principais nomes da política no estado resolveram abraçar mais uma vez o discurso do golpismo, agora encarnado na figura do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, contra seu colega Alexandre de Moraes. No ato de 7 de Setembro na Avenida Paulsita, o que se consolidou foi mais que uma ação deliberada de propaganda eleitoral, foi sobretudo, um ataque frontal às instituições democráticas, com foco absoluto no STF.
O perigo da manifestação ocorrida em São Paulo reside na gravidade do tom adotado. Sob a liderança do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e do prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), as cúpulas do poder estadual e municipal chancelaram publicamente discursos de deslegitimação da Suprema Corte, alinhando a máquina pública de São Paulo a um movimento de características golpistas que já foi visto nos últimos anos.
A barreira que salvou a democracia
Para compreender a gravidade dos ataques do alto do carro de som na Paulista, é preciso fazer um breve resgate: o Brasil só se mantém sob a normalidade constitucional hoje porque desde 2022 o STF e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) agiram de forma firme e intransigente na aplicação da lei. As decisões das Cortes Superiores foram o escudo institucional indispensável que impediu que as articulações golpistas do bolsonarismo derrubassem a democracia brasileira.
Agora, o palanque paulista tenta reescrever o enredo, pintando os fiadores da ordem democrática como “ditadores” e “tiranos”, em especial, Alexandre de Moraes. Ao se unirem a essa retórica, Tarcísio, Nunes e seus aliados não apenas flertam com o retrocesso institucional, mas dão guarida política ao golpismo que continua vivo.
Oportunismo de Tarcísio e “Supremo é o povo” de Ricardo Nunes
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, buscou adotar uma vestimenta de aparente tecnicismo jurídico em seu discurso, mas que rapidamente se revelou de um oportunismo político acentuado. Tarcísio declarou que “as últimas revelações sobre Moraes do Supremo precisam ser esclarecidas, precisam de resposta” e defendeu que “está na hora do tribunal não se dividir para se defender, se unir para apurar”.
Na tentativa de justificar a pressão política sobre a magistratura, Tarcísio repetiu exaustivamente que “absolutamente ninguém está acima da lei”. Contudo, a contradição salta aos olhos: o próprio governador discursa em tom cobrador, mas disse há pouco tempo que o escândalo dos mais de R$ 60 milhões de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para custear o filme de Bolsonaro, não precisa de mais explicações.
Já o prefeito Ricardo Nunes não hesitou em endossar o ataque. No palanque, Nunes proclamou que “Supremo é o povo brasileiro”. O uso dessa frase em uma manifestação convocada explicitamente sob o mote de “Fora Moraes” não é um mero detalhe retórico: trata-se de um perigoso flerte com a ideia populista de que a vontade de uma multidão reunida na rua se sobrepõe às decisões da Suprema Corte do país, ecoando o mesmo jargão que antecedeu a invasão das sedes dos Três Poderes em Brasília.
A ameaça do Senado: desmonte institucional
Além do Executivo, a articulação golpista paulista estende-se de forma coordenada para o Legislativo. O ato de 7 de Setembro serviu para consolidar a chapa da extrema-direita que disputa as vagas do Senado Federal por São Paulo: o deputado federal e ex-secretário de segurança pública Guilherme Derrite (PP) e o deputado estadual André do Prado (PL).
As falas de ambos deixaram evidente que o objetivo de conquistar cadeiras no Congresso Nacional não é debater políticas públicas ou legislar em favor da população paulista, mas sim aparelhar o Senado para desferir um golpe por dentro do sistema.
Derrite, que se apresentou com as credenciais da segurança pública, declarou de forma agressiva que “ninguém aguenta mais os abusos do poder judiciário” e convocou os manifestantes para elegê-lo com a missão explícita de “colocar os poderes em equilíbrio”. No mesmo tom, André do Prado validou o discurso de retaliação e fatiamento institucional ao ser questionado se votaria pelo impeachment de ministros do STF: “Perguntam: ‘Você vota impeachment de ministro?’ É claro que eu voto”.
O plano do grupo, explicitado nas falas dos oradores, é claro: obter uma maioria de senadores alinhada à extrema-direita para forçar o afastamento e o impeachment de magistrados que contrariam seus interesses, destruindo o sistema de freios e contrapesos da democracia. Como admitiu o próprio presidente do PL, Valdemar Costa Neto, em sua fala na manifestação, a eleição deste bloco é a garantia para tentar anistiar Jair Bolsonaro das condenações judiciais e tirá-lo do horizonte da inelegibilidade.
O perigo da normalização
O alinhamento do governo paulista e da prefeitura da capital a este movimento mostra que a locomotiva econômica do Brasil está sendo deliberadamente operada como o principal motor do radicalismo antidemocrático. Tarcísio e Nunes usam o peso de seus cargos e a visibilidade de São Paulo para dar verniz de normalidade a discursos que, em qualquer democracia madura do mundo, seriam tratados como tentativas de subversão institucional.
Ao final de seu discurso, Tarcísio conclamou o público a declarar “independência do PT” e de “Lula”, convocando uma militância inflamada pelas redes sociais para o engajamento eleitoral. Sob o manto do debate eleitoral, o que se vende na Avenida Paulista é um projeto de poder que visa esvaziar o Judiciário para garantir a impunidade de seus aliados.



