Por Rogério Bezerra da Silva
Minha mãe tem duas datas de aniversário. Uma está no RG, aquela que nós, filhos, sempre esquecemos. A outra é a que ela comemora todos os anos, a que sabemos de cor e festejamos com amor. Para nós, essa é a data verdadeira. Não porque o documento não tenha importância, mas porque a vida também tem seus próprios registros, escritos na memória, no afeto e nas tradições de uma família.
Com meus tios, irmãos da minha mãe, acontece algo parecido. Eles também têm essa história de datas que não coincidem e nem sabem ao certo se os anos registrados correspondem à idade real.
Meu pai foi registrado apenas por volta dos 30 anos, quando migrou de Pernambuco para São Paulo no início dos anos 70. E há um detalhe especial: foi ele mesmo quem escolheu o sobrenome que carregaria, o mesmo que eu carrego, herdado dos avós dele, e não dos próprios pais. Um gesto que, de alguma maneira, também expressa o desejo de escolher como ser reconhecido no mundo.
Por isso, quando se comemora o aniversário do Lula, no dia 27 de outubro, e lembramos que os documentos registram seu nascimento em 6 de outubro, não vejo apenas uma curiosidade biográfica. Vejo um pedaço da história de tantas famílias nordestinas, como a minha, para as quais a pobreza e as dificuldades de acesso a direitos básicos fizeram com que o reconhecimento oficial da própria existência nem sempre acompanhasse o nascimento.
Essa história também é a história das políticas públicas brasileiras. Em 1997, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, a Lei nº 9.534 tornou gratuitos o registro civil de nascimento e a primeira certidão. Em 2002, o Ministério da Saúde criou incentivos para hospitais do SUS que possibilitassem o registro antes da alta.
Já em 2010, durante o segundo governo Lula, o Conselho Nacional de Justiça regulamentou, por meio do Provimento nº 13, o sistema nacional de unidades interligadas entre maternidades e cartórios, ampliando a possibilidade de a criança sair do hospital com sua certidão.
Durante muito tempo, milhões de nordestinos sequer nasciam em hospitais. Vinham ao mundo em casa, sem assistência médica e, muitas vezes, sem registro oficial. Hoje, essa realidade parece inimaginável, graças à expansão do SUS promovida pelos governos Lula. Uma transformação que mostra o quanto avançamos.
Talvez seja por isso que eu pense que nordestino nasce duas vezes. A primeira é quando chega ao mundo e precisa encontrar forças para sair da miséria, a falta de oportunidades e as desigualdades de um país que reservava destinos diferentes para seus filhos. Não é uma vida escolhida, mas uma vida que a injustiça obrigava seguir.
Mas há uma segunda vida, ainda mais bonita: aquela que começa quando quem conheceu a privação não se conforma em vencer sozinho. Quando o amor recebido, a solidariedade aprendida e o senso de justiça cultivado na família se transformam no desejo de mudar a vida dos outros. Quando o sonho deixa de ser apenas sair da pobreza e passa a ser construir um país no qual nenhum irmão precise viver aquilo que nós vivemos.
É nesse ponto que a história de Lula ultrapassa sua biografia. O menino pernambucano que enfrentou a pobreza, o trabalhador que migrou para São Paulo e o líder sindical que chegou à Presidência, por quatro vezes, representam uma trajetória que remete à experiência de milhões de brasileiros.
Sua história também nos leva a uma pergunta incômoda: por que tantos que conheceram a pobreza e, sobretudo, aqueles que nunca passaram por privações, aderem tão facilmente a projetos autoritários, à violência contra o próximo e à injustiça social, afastando-se, inclusive, da solidariedade e dos ensinamentos do Evangelho?
Quando penso na minha mãe, no meu pai e nos meus tios, percebo que a vida deles foi muito maior do que os documentos conseguiram registrar. O que ficou na memória não foi o número impresso no RG, mas o aniversário celebrado, a família reunida, o amor compartilhado e a solidariedade que atravessou gerações.
O Brasil que eu sonho não é aquele em que alguém consegue escapar da miséria e fecha a porta atrás de si. É aquele em que a conquista de uma pessoa abre caminhos para as outras. Em que sair da pobreza significa também ajudar os irmãos, os vizinhos e seus filhos a terem acesso à educação, à saúde, à moradia, à cultura e ao trabalho digno. Um país em que todos possam sonhar com um futuro antes inimaginável.
Porque nascer é um acontecimento. Ter a existência reconhecida é um direito. E garantir que todos possam viver com dignidade é uma tarefa solidária de todos nós.
Feliz aniversário, Lula! Que esse dia também seja daqueles e daquelas que nascem duas vezes, pois receberam a missão e a graça de transformar o mundo!
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Rogério Bezerra da Silva é Geógrafo, Mestre e Doutor em Política Científica e Tecnológica pela Unicamp. Articulista do Radar Democrático.
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