A gestão do transporte sobre trilhos no Estado de São Paulo coloca em xeque a eficiência do serviço público e a transparência fiscal. Sob a liderança do governador Tarcísio de Freitas, a pressa em consolidar uma agenda de desestatização tem gerado distorções profundas que afetam diretamente o bolso do contribuinte e a rotina de milhões de trabalhadores da Região Metropolitana.
O cerne da crítica à atual administração reside no modelo de negócios adotado, que impõe um asfixiamento financeiro à operação pública em benefício de subsídios milionários concedidos às concessionárias privadas.
Engenharia tarifária e desequilíbrio financeiro
O aspecto mais alarmante da atual política de transportes de São Paulo é a engenharia tarifária que regula o sistema. Embora o usuário pague o mesmo valor de tarifa na catraca, a divisão desse dinheiro por trás dos panos cria um cenário de severo desequilíbrio.
Os contratos assinados com consórcios privados garantem uma “tarifa de remuneração” por passageiro que frequentemente supera o valor pago pelo cidadão na bilheteria.
De acordo com dados amplamente questionados por sindicatos e auditorias independentes, a Câmara de Compensação do sistema repassa integralmente e com prioridade o valor devido às operadoras privadas.
O que sobra dessa arrecadação é direcionado ao Metrô e à CPTM (empresas estatais). Como o saldo restante é insuficiente para cobrir os custos reais de operação dessas companhias, o Tesouro Estadual é obrigado a cobrir o rombo com aportes extras, enquanto o Metrô público opera no vermelho crônico.
Esse arranjo drena a capacidade da estatal de investir na manutenção de suas próprias linhas (como as Linhas 1-Azul, 2-Verde e 3-Vermelha), que absorvem o maior fluxo de passageiros da capital, resultando em falhas crônicas e precarização induzida.
Atrasos e entraves em obras
Se a eficiência do setor privado é o principal argumento da gestão, o andamento das obras de expansão contradiz a narrativa de celeridade técnica.
O prolongamento de linhas cruciais continua refém de entraves jurídicos, falhas de planejamento civil e atrasos crônicos em projetos estratégicos.
O caso mais emblemático é o da Linha 17-Ouro do Monotrilho, um projeto que se arrasta há mais de uma década. A atual gestão se viu obrigada a injetar bilhões de reais adicionais para tentar destravar as obras das estações e vias após sucessivas quebras de fôlego financeiro dos consórcios contratados, evidenciando falhas graves nos critérios de qualificação e fiscalização das licitações do Estado.
Paralelamente, os estudos encomendados pelo Palácio dos Bandeirantes para a reestruturação societária do Metrô apontam para um horizonte onde até mesmo as linhas públicas deficitárias — após sofrerem com a falta de investimento estatal — possam ser repassadas à iniciativa privada sob condições altamente vantajosas para os compradores, perpetuando o ciclo de socialização dos prejuízos e privatização dos lucros.
Diálogo social sufocado e tensões trabalhistas
O foco obstinado na entrega de ativos ao mercado financeiro tem sufocado os canais de diálogo com a sociedade civil e com o corpo técnico que construiu a reputação histórica do Metrô paulista. A pressa em implementar o modelo de concessões a qualquer custo gerou uma escalada de tensões trabalhistas, greves frequentes e instabilidade na prestação do serviço essencial.
Ao priorizar o retorno financeiro de agentes privados em detrimento da sustentabilidade de uma malha pública integrada, a gestão Tarcísio de Freitas flerta com o colapso estrutural do transporte paulista.
A modernização do sistema de transporte de São Paulo exige investimentos, mas estes não podem ser viabilizados por meio de contratos leoninos que esvaziam os cofres públicos e tratam a mobilidade urbana como mercadoria e não como um direito constitucional dos cidadãos.
* O Radar Democrático publica artigos de opinião de autores convidados para estimular o debate.



