Política

Editorial: Repúdio à violência política e solidariedade às mulheres negras e mulheres trans

Casos na Alesp e em Campinas revelam misoginia e racismo, exigindo punição e segurança para as parlamentares

As imagens de racismo e transfobia emitidas da Tribuna da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) não são um fato isolado, mas parte de uma engrenagem de violência política que visa desumanizar e silenciar mulheres, especialmente as negras e trans, que ousam ocupar espaços de decisão.

No plenário da Alesp, a deputada Fabiana Bolsonaro (PL) protagonizou uma cena de disseminação de ódio ao praticar blackface sob o pretexto de um “experimento social”. O ato criminoso não foi apenas uma afronta à história do povo negro; foi uma ferramenta de ódio para desferir ataques transfóbicos diretos à deputada federal Erika Hilton (PSOL), questionando sua identidade de mulher e sua legitimidade na presidência da Comissão da Mulher. A agressão foi denunciada pela  deputada estadual Monica Seixas (PSOL), que interrompeu a sessão em defesa da ética. O ataque da bolsonarista feriu, primordialmente, a existência de todas as mulheres trans e negras do país.

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Simultaneamente, em Campinas, a vereadora Guida Calixto (PT) enfrenta uma escalada de perseguição física e psicológica. Após protocolar um projeto de lei para o combate ao feminicídio, o mandato de Guida tornou-se alvo de um grupo de homens que não hesitou em invadir seu gabinete, agredir e intimidar assessoras e vandalizar materiais de divulgação. Como uma mulher negra, vinda da periferia, Guida identifica com clareza a natureza desses ataques: trata-se de misoginia e racismo estrutural utilizados por grupos que odeiam a proteção dos direitos das mulheres.

O Radar Democrático expressa irrestrita solidariedade às deputadas Monica Seixas e Erika Hilton e à vereadora Guida Calixto. Vamos além: nos solidarizamos com todas as mulheres pretas, mulheres trans que são os alvos destes ataques.

É fundamental reiterar que o debate político, pilar da nossa democracia, deve ser pautado pelo confronto de ideias e projetos, jamais pelo uso de ataques que busquem desumanizar ou deslegitimar a presença de mulheres negras e periféricas nos espaços de poder.

O ambiente parlamentar exige o cumprimento de normas de decoro que garantam a integridade moral de todos os seus membros.

Ataques que extrapolam a divergência ideológica para atingir a esfera pessoal configuram uma barreira à democracia plena. Se constituem em violência política.

Reconhecemos a trajetória das deputadas Monica Seixas e Erika Hilton e da vereadora Guida Calixto na defesa dos direitos humanos e na ampliação de vozes historicamente silenciadas na Assembleia Legislativa de São Paulo.

A violência política não é apenas um ataque individual, mas uma tentativa coordenada de silenciar mulheres que ocupam espaços de decisão e defendem as pautas da classe trabalhadora, das mulheres e dos direitos humanos.

É nítido que os ataques buscam desqualificar a figura feminina na política, utilizando-se de táticas que raramente são aplicadas a homens em posições similares.

Não existe democracia plena enquanto parlamentares forem coagidas ou silenciadas por exercerem seu papel fiscalizador e propositivo.

A política não deve ser um palco para a ofensa, mas um instrumento para a transformação social e o diálogo entre os diferentes.

Reafirmamos nosso apoio a todas as parlamentares que enfrentam adversidades para exercer o mandato que lhes foi conferido pelo voto popular. Que o rigor ético prevaleça sobre a hostilidade.

Radar Democrático
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Radar Democrático é um portal de notícias focado no estado de São Paulo. Valorizamos a democracia, a pluralidade de ideia, a diversidade étnica e cultural, e os direitos humanos. Acreditamos na mobilização e organização da população como fundamentais para as transformações sociais urgentes não só em nosso estado, mas no país.

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